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solidão

domingo 17 de outubro de 2021

Devemos notar antes de tudo que se afastar de determinados homens, classes, ambientes e setores da sociedade, não significa necessariamente abandonar qualquer trato humano, mas sim desenvolver em outros planos e direções um convívio mais livre. A solidão seria assim a substituição de um contorno humano opressivo e imposto, por um novo horizonte de relações pessoais. É a experiência poderosa de um Hölderlin   traduzida nestes versos:

Doch kannt ich euch besser
Als ich je die Menschen gekannt,
Ich verstand die Stille des Äthers,
Der Menschen Worte verstand ich nie.
[Eu conhecia, porém, melhor a vós/ Quando tanto mais eu conhecia os homens,/ Eu compreendia a calma do éter,/ Dos homens as palavras eu jamais compreendia.]

Os maiores misantropos tiveram a sua confraria secreta, as suas amizades ideais que assiduamente frequentavam. As vozes eternas do passado, a demografia de seus próprios sonhos substituía a proximidade humana que não era encontrada na realidade. Podemos aqui falar de uma solidão povoada, escolha de um outro convívio, forma de superação dirigida em geral para um encontro decisivo. [192]

Como em todas as coisas humanas, não existe uma só espécie de solidão, mas inúmeras: autênticas e falazes, de ressentimento e hostilidade, de carência e plenitude, de amor e de simpatia pelo absoluto.

A superação ínsita no isolamento, o seu movimento próprio de transcendência, podem tanto significar triunfo e libertação, como, em outros casos, uma tortuosa abdicação de nossa alma. Nesse caso, ao negar o “outro”, ao insular-se em seu espaço próprio, o solitário só procura uma nova imunidade para sua mais íntima escravidão. Escapando ao olhar do próximo, o homem, neste caso, não proporciona a si mesmo qualquer nova possibilidade, não potência sua faculdade de comunicação, mas unicamente se contrai num mutismo redutor e sombrio. Como vemos, a ruptura do convívio humano não é um fato univoco e simples, pois comporta toda uma gama de especificações e motivações.

Diz Aristóteles na Moral a Eudemo que “o ser que se basta plenamente a si mesmo não tem necessidade de pessoas que lhe sejam úteis, nem que sejam benévolas com ele, nem da vida em comum, já que pode viver amplamente, só e a sós consigo mesmo. Essa independência absoluta é ressaltada com evidência sobretudo na Divindade”. Em forma mitigada, é essa a independência que buscamos quando desfazemos, de maneira provisória ou permanente, os laços com a sociedade existente. Entretanto, a independência do homem, a sua vitória contra os sortilégios e influências desmerecedoras do ambiente, o seu centrar-se em si mesmo, não acarreta a impossibilidade de novos encontros; pelo contrário, é uma preparação para eles. Ao afastar-se das “moscas da praça pública”, Zaratustra prepara o advento de uma nova relação e de um novo sentido vital. O amor da independência não é o encômio de um Eu em detrimento de outro, mas a amorosa realização de uma harmonia reciprocamente fortalecedora. Na afirmação desesperada de Ibsen, de que o homem forte é o homem só, sentimos o anelo de uma compreensão que ultrapassa e de certa maneira nega sua fria repulsa.
[...]
Romper com o mundo é uma tarefa do espírito e não qualquer coisa de natural e instintivo. Se o nosso ser se esgotasse na coexistência biossocial não sentiríamos às vezes essa coexistência como um depauperamento de nossas possibilidades, procurando na solidão a reconquista de um bem superior. Vendo o equívoco em nós e em torno de nós, procuramos um novo direito para a nossa existência. É portanto a solidão o índice de nossa capacidade de franquear e vencer todo o conjunto de mecanismos e inércias biossociais, instituindo em nós e fora de nós um novo contorno pessoal. Só é verdadeira a solidão que nasce de um impulso próprio no coração do solitário. O resto é contingência, abandono, necessidade, mas nunca vida pudica e concentrada. O oposto desta última figura é a existência sem interstícios, devassada, das aglomerações hodiernas, em que a curiosidade e o olhar humano varrem e devastam tudo quanto há de inalienável no homem subjetivo. Do tormento da vida exposta falou Dostoiévski   em seu livro Recordações da Casa dos Mortos.

Fala-se comumente na solidão das praias, em palmeiras ou bosques solitários. Essas expressões são, entretanto, meras metáforas, pois somente o homem pode ser solitário. As coisas são exterioridade pura, incapacidade de recolhimento e de autodistanciamento. O que é a natureza senão essa grande contiguidade, essa imensa conexão vital donde nada pode ausentar-se? Unicamente o nosso ser, como não-coisa, como excedente à natureza, como espírito, pode produzir-se como destino solitário e distante. [VFSTM  :192-195]


LÉXICO: solidão