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retorno

domingo 17 de outubro de 2021

A natureza e o movimento cíclico que ela impõe a todas as coisas vivas desconhecem o nascimento e a morte tais como os compreendemos. O nascimento e a morte de seres humanos não são simples ocorrências naturais, mas referem-se a um mundo no qual aparecem e do qual partem indivíduos singulares, entes únicos, impermutáveis e irrepetíveis. O nascimento e a morte pressupõem um mundo que não está em constante movimento, mas cuja durabilidade e relativa permanência tornam possível o aparecimento e o desaparecimento; um mundo que existia antes de qualquer indivíduo aparecer nele e que sobreviverá à sua partida final. Sem um mundo no qual os homens nascem e do qual se vão com a morte, haveria apenas um imutável eterno retorno, a perenidade imortal da espécie humana como a de todas as outras espécies animais. Uma filosofia da vida que não chegue, como Nietzsche  , à afirmação do “eterno retorno” (eiwige Wiederkehr) como o princípio supremo de todo ente simplesmente não sabe do que está falando.

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É somente dentro do mundo humano que o movimento cíclico da natureza se manifesta como crescimento e declínio. Estes, como o nascimento e a morte, não são ocorrências naturais propriamente ditas; não têm lugar no ciclo incessante e incansável no qual volteia perpetuamente todo o lar da natureza. Somente quando ingressam no mundo feito pelo homem os processos da natureza podem ser descritos como crescimento e declínio; somente quando consideramos os produtos da natureza – determinada árvore ou determinado cachorro – como coisas individuais, retirando-os, com isso, do seu ambiente “natural” e colocando-os em nosso mundo, é que eles começam a crescer e declinar. Embora a natureza se manifeste na existência humana por meio do movimento circular de nossas funções corporais, ela faz sua presença ser sentida no mundo feito pelo homem por meio da constante ameaça de sobrepujá-lo ou fazê-lo perecer. A característica comum ao processo biológico no homem e ao processo de crescimento e declínio no mundo é que ambos fazem parte do movimento cíclico – e, portanto, infinitamente repetitivo – da natureza; todas as atividades humanas provocadas pela necessidade de fazer face a esses processos estão vinculadas aos ciclos recorrentes da natureza, e não têm qualquer começo ou fim propriamente dito. Ao contrário da atividade da obra [working], que termina quando o objeto está acabado, pronto para ser acrescentado ao mundo comum de coisas, a atividade do trabalho [laboring] move-se sempre no mesmo círculo prescrito pelo processo biológico do organismo vivo, e o fim de suas “fadigas e penas” só advém com a morte desse organismo.

Na literatura mais antiga sobre o trabalho, até o último terço do século XIX, não era incomum que os autores insistissem na conexão entre o trabalho e o movimento cíclico no processo vital. Assim, Schulze-Delitzsch, em uma palestra intitulada Die Arbeit (Leipzig, 1863), começa com uma descrição do ciclo desejo-esforço-satisfação – “Beim letzten Bissen fängt schon die Verdauung an”. Contudo, na volumosa literatura pós-marxiana sobre o problema do trabalho, o único autor que enfatiza esse aspecto tão elementar da atividade do trabalho e teoriza sobre ele é Pierre Naville, cujo La vie de travail et ses problèmes (1954) é uma das mais interessantes e talvez a mais original das contribuições recentes. Discutindo os aspectos particulares da jornada de trabalho em contraposição a outras formas de medição du tempo de trabalho, ele diz o seguinte: “Le trait principal est son caractère cyclique ou rythmique. Ce caractère est lié à la fois à l’esprit naturel et cosmologique de la journée (...) et au caractère des fonctions physiologiques de l’être humain, qui’il a en commun avec les espèces animales supérieures. (...) Il est évident que le travail devait être de prime abord lié à des rythmes et fonctions naturels.” Daí advém o caráter cíclico do dispêndio e da reprodução da força de trabalho que determina a unidade de tempo da jornada de trabalho. A mais importante intuição de Naville é a de que o caráter temporal da vida humana, na medida em que não é simplesmente uma parte da vida da espécie, está em nítido contraste com o caráter temporal cíclico da jornada de trabalho. “Les limites naturelles supérieures de la vie (...) ne sont pas dictées, comme celle de la journée, par la nécessité et la possibilité de se reproduire, mais au contraire, par l’impossibilité de se renouveler, sinon à l’échelle de l’espèce. Le cycle s’accomplit en une fois, et ne se renouvelle pas” (p. 19-24). [ArendtCH  :C13]


LÉXICO: retorno; ciclo