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ação

domingo 17 de outubro de 2021

Talvez não seja mau definir, então, quais são as circunstâncias que têm de ocorrer para a realização de uma ação e que não podem ser ignoradas. Defina-se, então, qual a sua forma e o seu número. [Não pode assim ignorar-se:] 1) quem age e 2) o que faz, 3) a respeito do quê ou de quem é a ação e qual a situação peculiar em que se encontra o agente; por vezes também 4) aquilo com 5 o qual se age, por exemplo, o instrumento com que se executa a ação, e o 5) fim em vista do qual se age, por exemplo, em vista da salvação, e 6) de que maneira se age, por exemplo, calma ou veementemente.

Ora que ninguém poderá ignorar todas estes requisitos ao mesmo tempo, a não ser que esteja demente, parece evidente. Pelo menos, é evidente que não pode ignorar quem é o agente. Na verdade, como é que alguém se pode ignorar a si próprio? De fato, alguém pode agir sem saber o que faz, como os que dizem, «deixar escapar [algo] enquanto conversavam», ou como quando dizem «que 10 não sabiam que eram segredos», como refere Ésquilo a respeito dos mistérios, ou, como quando querem mostrar como algo funciona e acionam, sem querer, o seu mecanismo, como no caso da catapulta. Alguém pode confundir o seu próprio filho com um inimigo, como Mérope; ou confundir uma lança pontiaguda com uma romba, ou uma pedra com uma pedra-pomes; ou ainda quando, fazendo alguém beber um fármaco para o salvar, o mata; ou querendo agarrar as mãos a alguém (como os lutadores de luta livre), 15 e desferem um golpe. Ora pode haver desconhecimento de todas estas circunstâncias da ação, e quem ignora alguma delas parece agir involuntariamente, e por maioria de razão, age involuntariamente, quando ignora as circunstâncias mais decisivas. O que parece ser mais importante nas circunstâncias da ação é o fim em vista do qual ela é levada a cabo. Dizendo-se, então, que uma ação 20 praticada nestas circunstâncias é involuntária e depende de uma ignorância deste gênero, deve acrescentar-se ainda que essa ação é dolorosa e provoca arrependimento. [Aristóteles  , Ética a Nicômaco, III,1   1111a1-a20]


LÉXICO: AÇÃO; AGIR; AÇÕES; ATO; ACTU