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Er

domingo 17 de outubro de 2021

Estamos no termo? de um longo diálogo rico em peripécias (República X  ) mas que em nenhum momento? perdeu seu fio diretor: a justiça. Resta mostrar em um último debate que a virtude? e seu contrário não recebem sua verdadeira sanção senão na vida? futura. Para dar a seu discurso? seu caráter? de revelação divina, Sócrates faz apelo ao relato? do mito? de Er?, cuja alma?, se diz, reveio à terra? depois de ter estado? no reino? dos mortos. Sua revelação aporta um complemento? essencial? aos mitos do Górgias   e de Fedão: como se opera, uma vez? o juízo estabelecido e a pena? purgada, o retorno? à vida das almas submetidas à reencarnação? A República fecha depois da passagem da morte? aos Infernos. [Geneviève Droz]


b) O mito de Er, o Panfílio: no livro X da República (614 a), Platão expõe um mito acerca da escolha? dos gêneros de vida, mito que retoma o tema? da metempsicose? assim como os do Fedro   (248 c) e do Fédon   (80 e); mas aqui é o problema? da liberdade? que é discutido e nele poder?íamos encontrar tema para uma reflexão sobre a questão das relações entre a essência e a exist?ência tão frequentemente falada hoje em dia.

Er foi morto no campo? de batalha, mas, quando estava para ser enterrado, voltou à vida e contou aos seus companheiros que a sua alma, saída do corpo?, conseguiu ver? no campo do além. Depois da morte, os juízes dirigem as almas dos justos para uma estrada que leva ao céu e as almas dos criminosos para uma estrada que desce; cada crime é expiado dez vezes e cada expiação dura cem anos. Depois de nos ter dado? uma descrição bastante complicada do universo? [1], Platão conta?-nos como se opera a escolha dos gêneros de vida. Um hierofanta vai distribuir? a cada alma um número em função do qual "esta poderá escolher entre um grande número de vidas que lhe são propostas em vista de uma existência futura; mas, antes de escolher, põe-nas de sobreaviso e coloca-as frente às suas responsabilidades: «Almas efêmeras, ides começar? uma nova carreira e renascer para a condição mortal. Não é um gênio que irá tirar-vos à sorte?, vós é que ireis escolher o vosso gênio. O primeiro? que o acaso? designar escolherá primeiro a vida pela qual estar?á ligado por necessidade?. A virtude não tem dono; cada um terá mais ou menos conforme a honrar ou a negligenciar. Cada um é responsável pela sua escolha, a divindade? está fora? de questão. [...] Mesmo o último a chegar, se escolher com cuidado? e se se esforçar por bem viver, pode encontrar uma condição conveniente e boa. Que o primeiro escolha com atenção, e que o último não perca? a coragem?.» O hierofanta atira, portanto, à frente das almas pacotes de vidas de todos os gêneros: vidas de animais, vidas de tiranos, vidas de homens célebres, vidas de homens obscuros, vidas de atletas, etc. Ora, infelizmente, a maioria das almas são guiadas na sua escolha apenas pelos hábitos da sua vida anterior. O primeiro a escolher precipita-se sobre uma vida de tirano; levado pela imprudência e pela ganância, «não viu que a sua escolha o destinava a comer os seus próprios filhos, e outros horrores?; mas depois de ter bem visto como era?, bateu no peito e lamentou-se por ter assim escolhido, sem se lembrar dos avisos do hierofanta; pois, em lugar de se acusar a si próprio dos males? que lhe caíam em cima, acusava a fortuna, os demônios, tudo menos ele próprio» (619 c). Ulisses, chamado? para escolher em último, e aliviado da ambição pelas suas prova?ções anteriores, escolhe uma vida humilde abandonada a um canto?, desprezada por toda a gente.

Depois de todas as almas escolherem a sua nova vida, a virgem Láquesis, filha da Necessidade, leva-as às Parcas; o gênio que cada uma escolheu coloca nas mãos da alma que irá guiar o fuso de Cioto, e leva-a em seguida para a trama de Átropo para tornar a decisão irrevogável. As almas são em seguida levadas para a planície do Lete, obrigadas a beber a água do rio; esquecem deste modo? a sua vida passada e regressam à superfície da terra, onde renascem para uma vida nova.

Ao longo deste mito, Platão insiste na ideia? de que cada um de nós escolhe livremente a vida que quer levar; mas ao escolher uma vida é o pacote inteiro que ele escolhe, cada um é, portanto, responsável pela escolha do seu destino? e não se deve acusar os deuses? pelos acontecimentos infelizes que poderão recorrer dessa escolha. O essencial, mas também o difícil, é raciocinar? antes da escolha, e não depois, ou seja, tarde de mais, quando estamos frente às consequências que tivéramos a ligeireza de não prever. [JEAN BRUN  ]

Observações

[1615 b e seg. Acerca desta passagem, cf. A. Rivaud, in Revue d’histoire de la philosophie (Janeiro-Março 1928), e L. Robin, Platon, pp. 203 e seg.