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agnosia

domingo 17 de outubro de 2021

gr. ἄγνοια, agnoia = ignorância; ágnôstos = desconhecido, não cognoscível. Devido à transcendência de Deus surgem alguns problemas acerca da possibilidade de este ser um objeto de conhecimento.


ἄγνοια quer dizer etimologicamente «incapacidade de reconhecimento, não apercepção, deixar passar despercebido». Como veremos mais adiante, Aristóteles   distingue uma ignorância passiva, inocente, se assim podemos dizer, de uma ignorância ativa, nociva e da qual somos absolutamente responsáveis. Podemos compreender a primeira como a que acontece em situações que criamos, como costumamos dizer, sem saber. De facto, às vezes dizemos ou fazemos coisas sem saber o que estamos a dizer ou a fazer. A segunda resulta de um esforço ativo de não querer saber, nem o que se diz nem o que se faz. Assim, age o bêbado. Para Aristóteles   o bêbado não age sem saber, mas sem querer saber, não age por ignorância (δι’ ἀγνοὤα), mas na ignorância (ἀγνοια), isto é, por ter criado conscientemente as circunstâncias para não querer saber o que está a fazer. [CaeiroEN  :290 Nota]
Na verdade, quem age na ignorância e nem sequer fica vexado 20 com o que fez não poderá ter agido voluntariamente, uma vez que ficou sem saber o que fez. Mas também não pode dizer-se que terá agido involuntariamente, porquanto nem sequer se entristeceu. As ações feitas por ignorância são assim de dois modos. Por um lado, a ação é involuntária quando o agente se arrepende do que fez. Por outro lado, caso não se arrependa, a sua ação será designada não voluntária. É melhor, pois, haver designações diferentes por 25 parecer tratar-se de modos diferentes de agir [1]. Por outro lado, também parece que o agir por ignorância é diferente do agir na ignorância. O bêbado e o irado não parecem agir por ignorância. Quer dizer, agem sem saber e na ignorância de facto, mas por estarem bêbados e irados. Ora acontece também com todos os adúlteros ignorarem o que devem fazer e aquilo de que devem abster-se, 30 e é por causa deste erro que se tornam injustos e, em geral, perversos. «Involuntário» não se diz, então, de um agente que ignora as suas verdadeiras conveniências, porque a ignorância a respeito da decisão não é o princípio da qualidade involuntária, mas antes o princípio da maldade; também não o é a ignorância em geral (por causa dela somos repreendidos), mas apenas a ignorância do particular e do concreto, isto é, das circunstâncias concretas e particulares decisivas para a ação. Nestes casos, há compaixão e perdão, porque quem age ignorando alguma das circunstâncias particulares e concretas da ação fá-lo involuntariamente. [Aristóteles  , Ética a Nicômaco III,1   1110b20-1111a1; CaeiroEN  :67-68]
Tout ce passage est expressément dirigé contre Aristote  . On trouve en effet la remarque suivante dans l’Éthique à Nicomaque : « c’est l’ignorance des particularités de l’acte, c’est-à-dire de ses circonstances et de son objet, car c’est dans ces cas-là que s’exercent la pitié et l’indulgence, parce que celui qui est dans l’ignorance de quelqu’un de ces facteurs n’agit pas volontairement » (III 1, 1110b33-1111a2, trad. Tricot). Aristote   distingue plusieurs degrés d’ignorance. L’ignorance qui conduit à choisir le mal et non le bien, de même que l’ignorance qui porte sur les règles générales de la conduite morale (kathólou, l. 32) ne suffisent pas pour dire que l’action n’est pas accomplie volontairement, et une telle ignorance est donc coupable. En revanche, l’ignorance des circonstances particulières de l’action peut être invoquée comme excuse et disculper celui qui la commet. Plotin   s’insurge contre une telle distinction en s’appuyant implicitement sur l’axiome socratique selon lequel « nul n’est méchant volontairement ». Dans cette perspective, l’ignorance des règles générales de la moralité (selon lesquelles par exemple il n’est jamais juste de tuer son semblable) suffit à affirmer qu’un acte n’a pas été accompli volontairement. Il est en effet inconcevable pour un Platonicien que l’on puisse commettre le mal volontairement, ce que veulent en revanche démontrer les distinctions d’Aristote  . Plotino - Tratado 39,1 (VI, 8, 1) — Exposição do objeto da pesquisa
LÉXICO: IGNORÂNCIA; agnosia; obscuro; ininteligível; ignorabimus; agnoiologia; agnosticismo; nesciência

Observações

[1A diferença de sentido para que Aristóteles aponta entre estes dois modos de agir na ignorância é sutilmente exprimida pelas designações «involuntário» [akousion], «não voluntário» [ouch ekousion].