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intelecção

domingo 17 de outubro de 2021

      

Desde as próprias origens da filosofia, começou-se por contrapor o “inteligir” ao que chamamos de “sentir”. Intelecção e sensação   seriam duas formas, em boa parte opostas... de quê? A filosofia grega e medieval entenderam o inteligir e o sentir como atos de duas faculdades   essencialmente diferentes. A contraposição de inteligir e sentir seria a contraposição de duas faculdades. Para simplificar a discussão, chamarei de “coisa” aquilo que é o inteligido e o sentido. Não se trata de “coisa” no sentido do que hoje o vocábulo significa quando se fala de “coisismo”, no qual coisa se opõe a algo que tem um modo de ser “não côisico” por assim dizer, como, por exemplo, a vida humana, etc. Aqui emprego o termo “coisa” em seu sentido mais trivial, como mero sinônimo de “algo”. Pois bem, a filosofia grega e medieval considerou inteligir e sentir como atos de duas faculdades, cada uma delas determinada pela ação das coisas. Isso, porém, seja ou não verdade, é sem dúvida uma concepção que não nos pode servir positivamente de base, porque justamente se trata de faculdades. Uma faculdade se revela em seus atos. Portanto, é para o modo mesmo de inteligir e sentir, e não para as faculdades, que nos devemos voltar basicamente.

Dito em outros termos, meu estudo vai incidir sobre os atos de inteligir e de sentir enquanto atos (kath’enérgeian) e não enquanto faculdades (katà dynamin). Os atos não são considerados, portanto, como atos de uma faculdade, mas como atos em e por si mesmos. Em todo este livro referir-me-ei, pois, à própria “intelecção”, e não à faculdade de inteligir, isto é, à inteligência. Se às vezes falo de “inteligência”, a expressão não significa uma faculdade, mas o caráter abstrato da própria intelecção. Não se trata, pois, de uma metafísica da inteligência, mas da estrutura   interna do ato de inteligir. Toda metafísica da inteligência pressupõe uma análise da intelecção. Certamente, em vários pontos fui levado a fazer conceituações metafísicas que considerei importantes. Porém, ao fazê-las, tive muito cuidado   para advertir que nestes pontos se trata de metafísica e não da mera intelecção como ato. Trata-se, pois, de uma análise dos próprios atos. São fatos bem constatáveis, e devemos considerá-los em e por si mesmos, e não segundo uma teoria de qualquer ordem  . [ZUBIRI  , Xavier. Inteligência e Realidade. Tr. Carlos Nougué. São Paulo  : É Realizações, 2011, p. 3-4]


Portanto, no interior da redução, em seu conteúdo fenomenológico intrínseco, devem ser interrogados sentido e imaginação   no que diz respeito à possibilidade de pertencerem ao pensamento   apreendido como um entendimento; é esse conteúdo, no final das contas, o único suscetível de fornecer a resposta  . Ora, o sentido e a imaginação, desde que não sejam interpretados ingenuamente como poderes psicofísicos do homem  , nem como seus atos enquanto processos ônticos, desde que se formule, pelo contrário, a questão transcendental de sua possibilidade – a saber, a possibilidade de eles próprios fazerem advir à fenomenalidade aquilo que podem então e só sentir e imaginar, a possibilidade também de eles próprios advirem à condição fenomênica, eles que são apenas, enquanto sentido e imaginação, enquanto modos   do pensamento, um tal advir – sentido e imaginação considerados, então, precisamente assim como “pensamento de sentir” e “pensamento de imaginar”, opõem-se ao entendimento com muito menos força do que parece. Caso se deixe de lado o problema, certamente crucial, em verdade, de sua tonalidade própria, caso sua afetividade permaneça inquestionada em sua especificidade – ela tão-somente será para Descartes  , uma vez esquecida a redução, e isso de tal modo que, “explicada” pelo “corpo”, isto é, pelo ente  , ela se encontra, sobretudo, excluída da problemática ontológica do pensamento puro – não nos será dado, pelo sentido e pela imaginação, ao menos, aquilo que elas sentem e imaginam no espaço de um ver e em sua luz, pela mediação, logo, dessa essência que a primeira definição denomina intellectus sive ratio? Esse ver transcendental imanente ao exercício desse sentido e dessa imaginação como a possibilidade última deles, como a possibilidade deles se ultrapassarem cada vez rumo a um conteúdo e alcançá-lo, não constitui, por sua vez, essa “espécie de intelecção” que Descartes reconhece neles e que faz deles justamente “espécies de pensamentos” [1]? Assim, pode-se conceber, com rigor  , de que modo ao [77] serem portadores em si da intelecção que lhes permite sentir e imaginar seu objeto, sentido e imaginação aparecem como modos do pensamento reduzido a essa intelecção. [MHPsique:76-77]
LÉXICO: intelecção

HEIDEGGER: noûs / Vermeinen / notar / intellect / intelecto / inteligência / νούς

Observações

[1Lettre à Gibieuf de 19 de fevereiro de 1642 ; FA, II, p. 909 ; AT, III, p. 479.