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coisas

domingo 17 de outubro de 2021

Em geral o desvelamento que determinou o advento de uma civilização técnica tem como contrapartida a ocultação e o aniquilamento das coisas em si mesmas. Não só não temos mais acesso a um conhecimento das coisas enquanto tais, como elas, dentro do universo das nossas possibilidades de conhecimento e de ação, não podem aparecer e mostrar-se. Esse fato do não-aparecimento das coisas como coisas, do nicht erscheinen des Dinges als Ding, e, no caso, do cântaro enquanto tal, se prende à circunstância de que uma coisa só pode configurar-se numa proximidade, numa Nähe, numa proximidade do divino. Esse é o seu domínio de aparecimento, o seu espaço de oferecimento original, ideias aliás que já encontramos em outros autores. O cântaro, quando sondado em sua origem, se revela como dimanante de um “oferecer” sagrado aos deuses, como “implemento” de um cerimonial religioso. Aqui é onde se configura a “cantaridade” do cântaro, o modelo arquetípico e não-feito-pelo-homem, que a seguir se estampa em todas as reproduções do moleiro. O cântaro serve, em seu uso profano para conter e dispensar uma bebida. Nesse ofertar do cântaro, nessa função ofertante está o caminho de compreensão de sua essência. A coisidade ou essência do cântaro comparece quando aquela função é mais forte e mais pregnante, no oferecer de todos os oferecedores, no oferecer da festa sagrada. Nessa proximidade dos deuses, nesse universo da ação ritual se delineia a coisa como coisa. Mas ouçamos as palavras de Heidegger  : “A dádiva do cântaro é a bebida para os mortais. Estanca sua sede. Alegra seus lazeres. Diverte sua sociabilidade. Entretanto a dádiva do cântaro é, às vezes, oferecida também como consagração. Então não mitiga qualquer sede, mas celebra a cerimônia da Festa nas alturas. Agora o prêmio do cântaro não é oferecido nem como simples dádiva, nem como bebida para os mortais. Agora o verter do cântaro é oferecido como bebida aos Deuses imortais. A dádiva sagrada do cântaro é a autêntica dádiva (Geschenk). No oferecer da bebida sagrada o cântaro como dádiva consagrada”. Portanto, o cântaro in status nascendi, em sua existência mais forte e primaveril, se manifesta na cena ritual, como protótipo mítico. Daí, promanam todos os seus usos particulares, todas as suas diversas Anwendungs [Aplicações] para usar a linguagem de [148] Frobenius. [VFSTM  :147-148]


LÉXICO: coisas