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coerência

domingo 17 de outubro de 2021

A teoria? da coerência, ao que ele Bertrand Russell   nos afirma, esbarra em duas? grandes dificuldades. A primeira? delas, é que não há razão para que nós admitamos que só é possível um corpo? de crenças coerentemente organizado; frequentes vezes?, apresentam-se duas ou mais hipóteses que explicam os fatos? por nós conhecidos e que têm relação com um dado? assunto. Sim, que têm relação com um dado assunto. Quer dizer: trata-se aí de uma visão parcial, a de um assunto dado. Ora, o ocorrer o caso numa visão parcial poderá realmente servir de argumento? contra a doutrina sustentada pelo «idealista» em questão, que define? a verdade? pela coerência total, e para o qual é real? unicamente o Todo?? Aliás, a busca de teorias unificantes — totalizantes — tem sido um postulado? do pensar? científico, e a ciência é a busca da coordenação de tudo em um sistema? único inteligível (graças a transformações matemáticas apropriadas), sendo? exemplo? relevante? dessa mesma unidade? o «intervalo relativista» da relatividade?. O absoluto? é a Forma? da correlação dos sistemas. O Universo? é um constructo? formal? do intelecto?, que a experiência confirma. Quanto ao outro estorvo (na opinião do Russell  ) que a teoria da coerência não poderá vencer, é o de que supõe conhecida a definição de coerência, quando a coerência, afinal de contas?, pressupõe a verdade das leis? da Lógica; sem embargo, pergunte a si mesmo? o aprendiz de filósofo se não se dará aí precisamente o oposto, isto é: se não serão afinal as leis da Lógica que supõem a verdade da afirmação da coerência, ou se as leis da Lógica, em última análise, não serão um derivado da lei da coerência. Suponhamos o princípio com que ele abre o assunto, a saber?: «o que é implicado por uma proposição verdadeira é também verdadeiro?», ou: «o que se segue de uma proposição verdadeira é também verdadeiro.» Neste princípio, como interpretar as essenciais? expressões — a expressão «implicado» e a expressão «se segue» — sem cair na ideia? da coerência lógica? Que significa o princípio, senão o seguinte: «o que é coerente? com o que é verdadeiro — é também verdadeiro»? E que é o princípio de contradição, senão o princípio da coerência das coisas?? «Coisa? alguma pode ser e não ser ao mesmo tempo?», eis o que nos afirma esse? princípio básico; no entanto, não será isso outra forma de dizer o seguinte: «tudo é coerente consigo próprio»? O que está no âmago dos princípios lógicos, não será o postulado da universal? coerência, da unidade inteligível, da universal inteligibilidade?? E, por outra banda, pressupor que a natureza? é inteligível, que obedece ao princípio de contradição, não será considerá-la como um uno inteligível e negar o pluralismo? absoluto do Russell  ? [António Sérgio, «Prefácio do tradutor» a Bertrand Russell  , Os Problemas? da Filosofia?, 2.a ed., pp. 21-23]

LÉXICO: coerência