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simples

domingo 17 de outubro de 2021

Em vão: todos esses expedientes, em vez de superá-la, remetem a uma situação fenomenológica irredutível que dela se alimenta secretamente – a situação em virtude da qual cada novo conteúdo de experiência apenas se oferece à luz do ver se o que o precede lhe fizer o sacrifício de sua própria presença. E para que uma cadeia de razões que se manteriam juntas no espírito, por um único problema do qual se gostaria de conservar na memória os dados, todo o resto daquilo que é se envereda na noite. Uma tal situação, na realidade, a estrutura fenomenológica de uma fenomenalidade onde o ver se alimenta, determina o conteúdo mesmo daquilo que [79] vê, mesmo quando esse conteúdo parece descobrir-se a si tal como é em si mesmo. Pois a natureza simples só é tal como é na medida em que se apresenta como o correlato de uma intuição, é a intuição dessa intuição que circunscreve e define a sua simplicidade. Reconhecemos que uma tal simplicidade encontre o seu princípio no modo de doação da essência e não no seu conteúdo intrínseco, no fato de que, longe de se propor como um objeto fechado e limitado a si mesmo, o simples, segundo Descartes  , é de uma infinita riqueza, é uma relação que remete a outras relações, uma essência que traz em si uma multiplicidade de implicações, de virtualidades, de potencialidades que deverão ser atualizadas, quer dizer, intuídas, por sua vez, em um processo de elucidação fenomenológica infindável. Enquanto portadora de implicações, a natureza simples nunca é tão clara, nem tão distinta que não se envolva em uma sombra constituída pelo horizonte de suas potencialidades. Por essa razão, Descartes   viu-se forçado a escrever, na Regra XII, que “não concebemos distintamente o número sete sem incluir nele mais ou menos confusamente o número três e o número quatro” [FA, I, p. 147; AT, X, p. 421]. Mas o jogo indefinido dessas remissões e implicações, a ultrapassagem, em todo caso, do dado claro rumo a um horizonte de potencialidades obscuras nem se deve a esse dado nem ao que é em si mesmo – em si mesmo não comporta nenhuma potencialidade representativa – mas deve-se precisamente ao seu modo de doação. Não é, pois, a essência, não é o ente que é finito, é o lugar onde aparece. A finitude é uma estrutura ontológica da fenomenalidade que encontra sua essência na ek-stasis e, como o ver do entendimento se produz no meio aberto por essa ek-stasis, ele é também e, por sua vez, essencialmente finito. [MHPsique  :[78-79]


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