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Dasein

domingo 17 de outubro de 2021

O primeiro? destes reptos foi, sem dúvida?, aquele que o próprio uso? do termo? Dasein? por Heidegger   constitui. É hoje cada vez? mais habitual contornar a dificuldade, deixando o termo por traduzir, com base? em razões, fundamentalmente, de dois? tipos?: o primeiro, negativo?, para evitar conotações desviadas ou espúrias (principalmente, a versão "óbvia" durante décadas em praticamente todas as línguas - e ainda hoje hegemônica em português - como "ser-aí"); o segundo, positivo?, com base no argumento? forte constituído pela constatação do novum de sentido? instituído pelo uso heideggeriano do termo, que não se reduz às acepções tradicionais?, filosóficas ou comuns ("existir?", "existência", "vida", "estar? presente?"), e até exclui algumas (a "existência" no sentido do "estar-aí-presente" das coisas?, a que Heidegger   chama Vorhandenheit), nem às variantes "inovadoras" inventadas - até mesmo? pelo seu Autor, como être-le-là - para tentar traduzir o seu sentido mais próprio. Heidegger   procurou, de fato?, embora tardiamente, evitar ser lido à maneira "existencialista", quer jaspersiana, quer sartriana, diretamente ligada a traduções de Dasein como "existência" (ou vida humana), ou como "ser-aí", isto é, situado, que está e se sente "no mundo?", num sentido meramente ôntico, oscilante entre o sein bei do "estar-residindo no mundo junto dos entes", e o caráter? mais propriamente "intra-mundano" destes últimos, caracterizados, justamente, por não ser à maneira do Dasein (a "presença" das coisas de que o homem? lança mão no seu quotidiano procurar fazer? a sua vida). Para Heidegger   é, contudo, importante essa relação vinculante entre o "ser" e o seu "aí" compreensivo-sentinte-linguisticamente-articulado, âmbito da sua mostração fenomenológico-aletheiológica. Decidiu-se, por isso, adotar uma tradução em que esse? vínculo apareça, como em alemão, explícito, evitando embora, quer a versão mais habitual, como "ser-aí", quer a que o próprio Heidegger   sugere, como "ser-o-aí", na medida? em que ambas reduzem e orientam, em direções distintas, o sentido pleno e original do termo, em que ambas essas conotações se conjugam, como num nó ôntico-ontológico, juntamente com as de existência e vida ou ser do ente humano, na sua facticidade?. Para traduzir esse todo de sentido, por analogia? com a forma?ção da própria palavra? alemã, escolheu-se a fórmula aí-ser, aqui adotada em todas as traduções. O caráter de estranheza que, decerto, provocar?á a sua leitura em português, talvez crie uma rejeição, à partida e maioritariamente, em quem está habituado a ouvir outra fórmula, tacitamente vigente como versão óbvia do termo e do conceito? nele capturado. Mas essa rejeição inicial deve, justamente, ser o apelo a compreender? o sentido poderoso e rico do termo, que nem a sua não tradução em português, nem a sua versão vulgar? permitem manter em vigor?. Há, contudo, que ter em conta? que o próprio Heidegger   introduz, as vezes, uma ênfase especial ao separar com hífen os dois elementos? da palavra: em Da-sein, em das Da-sein, chama-se a atenção para cada um dos elementos de sentido, mais que para o todo?, para o plus de significação que resulta da sua aglutinação, acentuando, portanto, singularmente, um dos sentidos vigentes no termo: o de "ser aí" ou o de "ser-o-aí", consoante o contexto. (Irene Broges-Duarte, GA5BD)


Da-sein, como modo? de ser próprio do homem, deve ser entendido com precisão na oscilação da sua ambiguidade?. Pois, uma vez pode ser entendido, como o modo diferencial, que distingue o homem dos entes não-humanos. Assim entendido, no jargão filosófico, dizemos que o Dasein é uma diferença ôntica que distingue o homem de outros entes não-humanos. Nesse caso, teríamos duas grandes regiões do ente como: a região do ente humano e a região do ente-não humano. É o que, no início, pressupomos, quando falamos da classificação do Mito? e da Arte? como sendo? produtos do homem, distinguindo-os de outros entes, como produtos da natureza?. Embora nessa divisão entre? o modo de ser próprio do homem e o modo de ser do ente não-humano haja grande diferença, o sentido do ser que abrange essas duas regiões numa generalidade maior e mais vasta é o ser num sentido bem determinado. Pois tanto os entes humanos, como também os entes não-humanos são entes. O sentido do ser aqui é comum?, geral? em ambas as regiões. A expressão o modo de ser próprio do homem, entendido como diferencial diante do ente não-humano, debaixo do igual? sentido do ser, comum a ambos, é diferença ôntica. O modo de ser próprio do homem, porém, ao ser entendido, como diferença ôntica, pode, ao mesmo tempo?, ser entendido também, como diferença ontológica. Na [42] diferença ontológica, a diferença existente não é entre este ente e outro, nem entre ente e ente num sentido mais geral, mas entre ser e ser, ou melhor “entre” o sentido de ser e o sentido do ser. Mas de que se trata? Em vez do ser ou sentido do ser usemos os termos horizonte?, ou melhor, mundo que, no início da nossa reflexão, ao falarmos das diversas acepções dos termos algo, objeto?, coisa?, troço, trem, ou em alemão etwas, Objekt, Gegenstand, Ding, e Sache, mencionamos, como indicadores do modo de ser característico de cada modo de ser.. Nesse sentido então, a diferença ontológica diz respeito? à diferença existente entre horizonte e horizonte, entre mundo e mundo. Só que aqui é necessário não entender o horizonte (ou o mundo) de modo vago? e abstrato?, como se fosse um grupo?, uma classe? ou uma região diferente de entes. Pois horizonte ou mundo diz respeito à totalidade?, de tal modo que não se trata de “objetivar” a totalidade, como ente, e colocá-los uma ao lado da outra a modo de um conjunto de coisas. O horizonte ou o mundo, como cada vez totalidade, abrange todos os entes atuais e possíveis, sob o sentido do ser ali operante, de tal modo que uma vez dentro?, não há nada? que possa ficar fora? e, a partir de dentro não se pode perceber? que é possível uma outra totalidade. Surge a pergunta?, é possível pensar? o mundo de modo mais geral que abrangesse todos os mundos na sua mundidade? Não seria possível um mundo assim geral, pois o mundo não é um gênero, nem espécie, nem isso ou aquilo, mas ...cada vez mundo, cada vez seu, na total auto-identidade? de e consigo mesmo, sem se trancar em si, pois a partir de dentro se expande indefinidamente, mas na sua identidade diferenciai, se perfaz radicalmente “fechado” ou “oculto?” a si mesmo, pois não se pode sair do mundo e tomar pé numa posição extra ou além-mundo, para adquirir uma visão panorâmica geral dos mundos na sua mundidade. Uma tal visão panorâmica é fruto de um bem determinado horizonte, cujo modo de ser é caracterizado pelo termo algo (etwas) e mesmo ente (Das Seiende) ou também objeto (Objekt), cujo “grau?” de mundidade é tão baixo que o ente não aparece aqui a não ser, como um quê-bloco totalmente abstrato e indeterminado?. O modo de ser da mundidade caracteriza o modo de ser ôntico do Homem que ambiguamente se pode chamar também Da-sein, mas é precisamente nesse modo de ser onticamente diferencial que aparece a possibilidade? de recolocar a busca, i. é, a questão do sentido do ser, na sua diferença ontológica, pois é somente no Homem agora? entendido, como Dasein, que se abre a compreensão de que se trata quando dizemos ser, como horizonte, como mundidade, do ente na sua totalidade. Esse modo de ser que é, ao mesmo tempo ôntico e ontológico, ou melhor, o modo de ser ôntico, que, na sua diferença ôntica, ao se distinguir? do ente não-humano, traz, nessa diferença identificadora do ser do Homem, a revelação, a abertura que mostra a mundidade, como a diferença que caracteriza a identidade de cada ente [43] no seu ser, (diferença ontológica) se diz em “Ser e Tempo?” ser-no-mundo? e se refere à finitude? essencial? do Homem, como Da-sein. [HARADA  , Hermógenes. Iniciação à Filosofia?. Exercícios, ensaios e anotações de um principante amador. Teresópolis?: Daimon?, 2009, p. 42-44]

VOCABULÁRIO DE HEIDEGGER

DASEIN E CORRELATOS: Da-sein / Daseyn / être-là / être-le-là / ser-aí / estar-aí / pre-sença / being-there / ser ahí / eis-aí-ser / Daseinsanalyse / Daseinsmässig / Daseinsmäßig / daseinmässigen / daseinsmäßigen / à la mesure du Dasein / propre au Dasein / conforme-ao-Dasein / proprio del "ser ahí" / Daseinsauslegung / interprétation du Dasein / interpretação-do-Dasein / interpretation of Dasein / Analytik des Daseins / analytique du Dasein / analítica da presença / analítica do Dasein / analytic of Dasein / Mitdasein / l’être-Là-avec / Dasein-com / co-presença / Mitdasein / co-Dasein / Nichtmehrdasein / n’être-plus-Dasein / já-não-ser-aí / no-longer-Dasein

LÉXICO DE FILOSOFIA