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pan

domingo 17 de outubro de 2021

gr. παν, pan: tudo, todas as coisas, o Todo. Latim: omnia. O conjunto das realidades sensíveis, o universo; v. hólon, kósmos. Gramaticalmente, pân é, em primeiro lugar, um adjetivo indefinido neutro (latim: omne) cujo masculino é pâs. A seguir esse neutro é substantivado para designar uma totalidade.


gr. πολλά, polla = todo, multiplicidade, múltiplo total. As ideias apreendidas como unidades que são, mas as múltiplas coisas sensíveis que nelas participam apreendidas como em processo de devir. hoi polloi = a multidão, o grande número.
gr. πλῆθος, plethos: pluralidade, múltiplo. Segundo Aristóteles   (Meta. 1020a) uma pluralidade é aquilo que é potencialmente divisível em partes descontínuas (me syneches). Assim, uma definição possível de número (arithmos) é «um plethos com limite» (peras) (loc. cit.). Esta quantidade (poson) discreta e numerável que é o plethos contrasta assim com a quantidade contínua e mensurável que é magnitude (megethos).
O Uno é o Princípio soberano de tudo, também das hipóstases, isto é, do Noûs e da Alma do mundo. A palavra hipóstase, aplicada ao Uno, faz-nos entender que aquilo que está além do ser é mais do que ser simplesmente: é o Supra-Ser, o Supra-Bem, o Supra-Belo. Plotino   denomina-o tò epekeina tês ousias. O Uno, ademais, identifica-se com sua vontade: "A vontade dele (Uno) é também a sua essência" (En. VI, 8  , 13). A vontade constitui a sua independência, a sua auto-suficiência, o domínio de si e, ao mesmo tempo, a sua transcendência. Em razão disso, a processão ou emanação é livre, porquanto não há quem possa obrigar o Uno a produzir algo. Podemos denominá-la "libertas ab extrinseco". Em outros termos, ele não pode ser coagido. E, paradoxalmente, a aporroia é necessária, porque o Uno quer expandir, comunicar a sua superabundância (Cf. En. V, 2  , 1,9-10). Estamos na presença de uma necessidade, sim, mas de uma necessidade moral, no sentido de o Uno querer difundir-se, consoante o axioma bonum est diffusivum sui [1]. Isso significa que nada é produto do acaso ou de um fatum mecanicista. Não vale, pois, para Plotino  , o que diz Dante  , referindo-se a Demócrito: "Il mondo a caso pone". Se o Uno agisse obrigado pela ananke, com destino inevitável, ele agiria contra a razão. A necessidade, aqui, quer dizer impossibilidade de agir de outra forma do que age, isto é, produzindo entes finitos, mas permanecendo ele próprio infinito e perfeito. "Ele (Uno) não é possuído pela necessidade, mas ele é a necessidade e a lei das demais coisas" (En. VI, 8  , 10, 34-36). Isso tudo se entende como superabundância de poder. E mais. O Uno "é o que deve ser: portanto, não por acidente, mas por necessidade; e essa necessidade é o princípio de todas as outras necessidades" (En. VI, 8  , 9, 14-15). O mundo é efeito; o Uno, causa eficiente [2]. O mundo é o que é, porque o Uno assim o quis. Visto no Deus cristão não haver um antes e um depois, ele não cria por deliberação ou decisão, atualizando um projeto, assim também o Uno – que é simples, eterno – não delibera, para criar. Dizemos "deliberar", antropomorficamente ou analogicamente. Isso significa que o Uno não age às cegas [3]. No Uno não há nada inconsciente ou inerte. Ele é "plenamente senhor de si" [4]. Por isso, "é difícil crer que o que ele faz ou o que provém do seu poder lhe escape de qualquer modo que seja" [5].

Assim, a soberana superioridade do Uno aponta para a sua interioridade mais íntima. A liberdade do Uno Plotino   expressa-a com estas palavras incisivas: "(...) ele não é escravo de si mesmo (mêdê douleion esti heautoû)" (Cf. En. VI, 8  ,21). Nisso consiste a sua ipseidade. Por isso, a liberdade radical do Uno exclui toda e qualquer intrusão de elementos estranhos e fundamenta a dependência radical dos entes que dele dimanam. Ele é a plenitude do Ser.

A liberdade de produzir faz do Uno o Princípio real de tudo, o autor de quanto não é ele próprio. Por isso, o que não é o Uno, mas provindo dele, é diverso dele (hetérou óntos tôn pántôn: En. VI, 7  ,42, 13).

Porém, o Uno e o múltiplo acham-se unidos, no sentido de que o múltiplo participa do Uno, sem, no entanto, haver dependência deste com relação àquele. Vale, sim, o inverso. Os entes participam dele (não são partes dele!), sem que ele se divida; em produzindo, ele não esgota a sua superabundância, nem se empobrece [6]. Em outras palavras: o Uno é capaz de agir no mundo, sem que nele se verifique uma mudança. Assim logra-se falar em transcendência entitativa e imanência operativa.

Pelo exposto, percebem-se alguns traços de originalidade na concepção plotiniana quanto à natureza do Uno (Deus ou Absoluto) e à sua relação com o mundo. [Ullmann  ]


À partir du moment où l’on accorde que c’est la « totalité » (pánta) des choses qui dépend des dieux, la volonté de savoir si « quelque chose » (tí, lignes 1 et 5) dépend d’eux devient inutile. La différence entre les hommes et les dieux résiderait donc dans l’extension du pouvoir : les hommes exercent leur pouvoir de façon restreinte et limitée à certaines choses ; alors que le pouvoir des dieux s’étend universellement sur tout. Plotino - Tratado 39,1 (VI, 8, 1) — Exposição do objeto da pesquisa
LÉXICO: pan; múltiplo; multiplicidade; pluralidade; plethos

Observações

[1Não é artifício literário dizer que a "difusão do amor", na emanação plotiniana, constitui-se em doação: "L’idea di una donazione nella quale colui che dona non viene sminuito si incontra ad. es. anche in Numenio (...)" (SZLEZAK, Thomas Alexander, Platone e Aristotele nella dottrina del Nous di Plotino (Temi metafisici e probl. del pens. ant.) (Milano, 1997), p. 149, nota 340).

[2"O Uno é causa num sentido eminente e mais verdadeiro, pois contém simultaneamente todas as coisas que devem nascer dele para constituir a Inteligência, e é o genitor de uma realidade que não é casual, mas como ele a quis" (En. VI, 8, 18, 39-42).

[3"In quanto espressione dell’essenza dei Bene e dell’intenzionalità che in ciò si rivela, l’Uno esclude, per una comprensione del mondo, il caso e il destino, ma anche la necessita cieca e costrittiva in quanto forme dell’irrazionalità. Il rifiuto della tychê, del tò synébê, dell’autómaton. come essenza o struttura del Principio, e con esso anche del suo mondo, che ricorre continuamente come un ’leitmotiv’ attraverso le numerose argomentazioni di VI, 8, si conclude nella giustifícazione di una origine in se chiara e ’razionale’, che come assoluta libertà vuole ciò che è" (BEIERWALTES, Werner. Plotino. Un cammino di liberazione verso l’interiorità, lo spirito e l’uno (Temi metafisici e probl. del pens. ant.), 2. ed. (Milano, 1993), p. 59-60). "(...) l’Uno genera ciò che vien dopo di lui non già perché mosso da un cieco istinto, ma perché è assoluto sé stesso, pienezza totale e quindi potenza generativa inesauribile e trabocante" (MAGRIS, Aldo. Invito al pensiero di Plotino. (Milano, 1986), p. 99).

[4"Kyrios pante heautou" (En. VI, 8, 13, 10).

[5TROUILLARD, Jean. «La Procession plotinienne» (Paris, 1955), p. 79.

[6"La véritable efficacité est la fécondité de surabondance, le surplus gratuit d’une opulence qui ne peut être que généreuse, justement parce qu’elle n’a rien à désirer ni à perdre" (TROUILLARD, op. cit., p. 71).