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domingo 17 de outubro de 2021

O deus acenante acena para um mundo simbólico, de dentro dele, e a «simbolidade» do símbolo-objeto do deus acenante acena para o Original-Originário de todos os dramas representativos das mensagens do Ser, de Deus, do Absoluto-Secreto, da Excessividade caótica, que, só mal contida, pode ser mensagem, porém, mensagem cifrada e que, por cifrada, é só aceno. Do silêncio a que nos referiremos, quando falamos da linguagem que pressupõe silêncio, podemos afirmar, desde já, que seja ele o silêncio dos deuses acenantes. Nós falamos, na trans-objetividade, o mudo aceno dos deuses, e por entre as pausas de uma linguagem que não se fala sem pausas, as pausas são indecifrados acenos dos deuses. Se os deuses fitassem, por palavras, as mensagens da [156] Divindade, não haveria os silêncios que tentamos preencher de «razões». A linguagem decifrante do mudo aceno dos deuses que se ocultam nos mundos que são deles, como mensagens que trazem do Além-Horizonte Extremo, é descobrimento desses mundos e desocultação dos deuses que neles se ocultaram, é interpretação do acenado pelo aceno. Mas no acenado, há um acenado de que a linguagem não fala nem pode falar: é o Deus que ditou as mensagens, as margens que são só mundos cifrados, mas decifráveis. [EudoroMito:156-157]


88. Do «oculto reinar» dos deuses, parte-se, não para a sua própria desocultação, mas, sim, para o «aparecer do Deus em seu ser». O silêncio que se escuta na linguagem dos mitos, o que escutam os que podem escutá-lo, tem uma significação, ou abre-se para uma significação que talvez já esteja implícita no serem os deuses os mensageiros da Divindade: a mensagem está para o Deus como os acenos estão para os deuses. A mensagem aponta para cima e para baixo. Aponta para baixo, para o símbolo arquetípico acenado pelo aceno que é uma parte da mensagem, e aponta para cima, tornando aparente o ser do Deus que a envia — esta [176] é a outra parte da mensagem de que os deuses são mensageiros, a que faz, precisamente, que o Deus apareça em seu ser. Dizendo-se que o ponto de partida está no «oculto reinar» dos deuses, e não nos acenos que desocultam homens com seu mundo e o mundo com seus homens, isso já se constitui como antecipação daquele «ser (do Deus) que o subtrai a todo o confronto com o que é presente». O «oculto reinar» dos deuses tem de ser entendido, digamo-lo assim, como os «mistérios menores» que preparam o iniciando para a iniciação nos «mistérios maiores». Se o ser dos deuses acenantes não se esgota nos acenos, muito menos o ser de Deus, nas mensagens enviadas por seus mensageiros. Não há possível confronto entre o manifestado («o que é presente») com o Manifestante. O «oculto reinar» dos deuses aponta, no que dificilmente se transcende no mundo, para o ainda mais difícil transcender o mundo qualquer dos mundos acenados pelos deuses. Eis-nos beirando o último limite-liminar, o Horizonte Extremo. Além dele, habita Aquele de cuja existência nem suspeitaríamos, se não lhe aprouvesse enviar-nos mensageiros, ou se, como Caótica Excessividade com o misterioso poder de a Si próprio se conter, no conter-se, quando se contém, não despedisse as tais Fulgurações Ofuscantes. Fulgurações que são mundos manifestos. Ofuscantes porque no manifestado não se alcança o ser do Manifestante. Aqui terminaria o nosso alongado discorrer, que só tentou explicar, à nossa maneira, o sentido de umas linhas do transcrito ensaio de Heidegger  , se não nos tivéssemos referido a um limite-liminar, isto é, se não tivéssemos persistido na liminaridade do limite, mesmo o do Horizonte Extremo. Há que insistir nos motivos que nos levaram a não renunciar ao limen, nem chegando ao limes que, segundo parece, só devia ser limite. [EudoroMito:176-177]
LÉXICO: mensagem