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meio

domingo 17 de outubro de 2021

Que sentido? podemos apreender? de um termo? que, em si mesmo, consegue indicar, em diferentes idiomas de origem? latina, as ideias? de centro, entorno e intermediação, entre outras tantas na língua? portuguesa. Apenas tomando estas acepções básicas, poderíamos afirmar, sem qualquer ironia?, que estamos lidando com um termo que se refere a tudo e todas as coisas?...

Neste sentido, talvez um termo forte candidato à categoria? de conceito? transversal, conforme proposta por Yves Barel [1], em seu ensaio sobre o que denominou transversalidade, ou como ele mesmo sugere um conceito perfeitamente marcado pelo logo Z de Zorro.

Como podemos facilmente perceber, compondo este Z, da forma? que o personagem Zorro geralmente o aplicava ao uniforme? do sargento Garcia, vemos que ele se mostra construído? por dois eixos paralelos religados por uma barra oblíqua, “fazendo reencontrar o que não pode se reencontrar”. Para Barel, a barra oblíqua do Z, enquanto passagem de uma paralela a outra, é uma metáfora? do transito de conceitos entre disciplinas?.

Enquanto passagem, movimento? avante, continuidade, o conceito transversal não é nem o conceito imobilizado em um lugar? preciso de uma disciplina, nem o conceito imperial, presente em todos os lugares?, o conceito almejado pela proposta de inter? ou de transdisciplinaridade.

Para Barel, o conceito transversal é um conceito andarilho, no interior como no exterior? de uma disciplina qualquer. Muda as passagens, os caminhos, nos quais se desloca, e sem dúvida? ele próprio? muda com elas, sem, no entanto, perder sua identidade?. Os conceitos andarilhos assumem assim uma função? de junção e superposição do específico e do universal?. A andança é ocasião? para anamorfoses ou isomorfismos do conceito.

Conceitos transversais, como aqueles indicados pelo termo meio?, se fixam em um momento? dado?, em uma disciplina, como neste caso, na biologia? e na geografia, por exemplo?. Adquirem a coloração local, a exemplo de um camaleão, ao mesmo tempo? que fazem da disciplina sua passagem, seu trânsito, ou seja, assumem neste percurso “um fixo em um fluxo”.

Um conceito transversal de alta qualidade?, realiza o equilíbrio entre fixação e fluidez, parada local e movimento geral?, se imobilizando para se fazer conceito, ganhando rigor (sem vir a ser um rigor mortis), e retomando seu caminho, para justamente entrar no exercício da transversalidade.

A transversalidade do termo meio, e de suas diferentes noções, indica que se trata de um termo que se define? na e pela indefinição de suas “passagens”, de suas trajetórias. A indefinição não deve ser entendida como a ausência? de definição, mas sim como a multiplicidade? de definições em constante transformação? interna. Constata-se assim uma ocorrência? estranha, onde a definição e a transgressão da definição coabitam, sem se destruírem mutuamente.

Nessa situação?, o mesmo termo, a mesma expressão?, a mesma frase, parecem falar? de algo preciso, ao menos relativamente, e portanto, disseminam sentidos sobre um amplo território de conhecimento?, de difícil mapeamento.

Na hierarquia? de produtos do espírito? humano?, por ordem? de rigor crescente, um conceito se situa bem alto: representa algo de delimitado, preciso, consistente, de claro, quanto ao recorte que efetua na realidade?, se dotando logo, ele mesmo, de fronteiras identificáveis sem qualquer equívoco?.

O conceito ao adquirir a propriedade? de transversalidade, perde uma grande parte? de suas qualidades de conceito: põe um pé no reino? da indefinição, esquece seus limites?, perde sua precisão?, em aparência? ou de fato?, se torna, em parte, seu próprio contrário, ainda que permanecendo ele mesmo.

Essa coincidentia oppositorum, que tão bem qualifica a realidade, segundo os alquimistas de outrora, se oferece ao exame do espírito, através do conceito transversal. No caso do termo meio, ou melhor da díade? ser-meio, temos um perfeito? recurso? de retórica?, ou como se costuma denominar, um oximoro, facilmente compreensível através de uma imagem? grosseira: o verme está no fruto e o fruto está no verme...

A transversalidade resgata, de uma certa maneira, o bom e velho método? analógico?, tão apreciado entre os antigos pensadores, e posteriormente desprezado pelos puristas da ciência? moderna, como um instrumento? perigoso, sujeito? a eventuais abusos. Analogia? e metáfora são na verdade? temas? relevantes da prática da transversalidade, pois esta segue um procedimento analógico, por vezes metafórico.

O termo meio, enquanto oximoro, estabelece uma rede sistemática? de noções metafóricas que permite abarcar aspectos diferentes, e até opostos, de um mesmo recorte da realidade, mascarando necessariamente outros aspectos. Ganha concretude a dicotomia? básica e original entre o Mesmo e o Outro?, ao compreendermos nossa experiência? em termos de objetos? e substâncias? espacializadas, e portanto, capazes de ter? um centro, um entorno e uma mediação?.

LÉXICO: meio

Observações

[1BAREL, Yves (1989), “Propos de travers ou de la transversalité”, in Lucien Sfez (dir.), Dictionnaire critique de la communication. Paris, PUF.