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metabolismo

domingo 17 de outubro de 2021

Ao definir o trabalho como “o metabolismo do homem com a natureza” em cujo processo “o material da natureza [é] adaptado, por uma mudança de forma, às necessidades do homem” de sorte que “o trabalho se incorpora a seu sujeito” Marx   deixou claro que estava “falando fisiologicamente” e que o trabalho e o consumo são apenas dois estágios do ciclo sempre-recorrente da vida biológica [1]. Esse ciclo precisa ser sustentado pelo consumo, e a atividade que provê os meios de consumo é o trabalho [2]. Tudo o que o trabalho produz destina-se a alimentar quase imediatamente o processo da vida humana, e esse consumo, regenerando o processo vital, produz – ou antes, reproduz – nova “força de trabalho” de que o corpo necessita para seu posterior sustento [3]. Do ponto de vista das exigências do processo vital – a “necessidade de subsistir” como afirmou Locke   –, trabalhar e consumir seguem um ao outro tão de perto que quase constituem um único movimento, o qual, mal termina, tem de começar tudo de novo. A “necessidade de subsistir” comanda tanto o trabalho quanto o consumo; e o trabalho, quando incorpora, “reúne” e “mistura-se” corporalmente às coisas fornecidas pela natureza [4], realiza ativamente aquilo que o corpo faz mais intimamente quando consome seu alimento. Ambos são processos devoradores que se apossam da matéria e a destroem, e a “obra” realizada pelo trabalho em seu material é apenas o preparo para a destruição final deste último.

É verdade que esse aspecto destrutivo e devorador da atividade do trabalho só é visível do ponto de vista do mundo e em oposição à obra, que não prepara a matéria para incorporá-la, mas transforma-a em material, para operar nele [work upon] e utilizar o produto acabado. Do ponto de vista da natureza, é a obra que é destrutiva, mais que o trabalho, uma vez que o processo da obra subtrai a matéria das mãos da natureza sem a devolver a esta no curso rápido do metabolismo natural do corpo vivo.

Igualmente vinculada aos ciclos recorrentes dos movimentos naturais, mas não tão prementemente imposta ao homem pela “condição da vida humana” [5] é a segunda tarefa do trabalho – sua luta constante e interminável contra os processos de crescimento e declínio mediante os quais a natureza permanentemente invade o artifício humano, ameaçando a durabilidade do mundo e seu préstimo para o uso humano. A proteção e a preservação do mundo contra os processos naturais são duas dessas labutas que exigem o desempenho monótono de tarefas diariamente repetidas. Ao contrário do exercício essencialmente pacífico por meio do qual o trabalho obedece às ordens das necessidades imediatas do corpo, essa luta trabalhosa, embora possa ser ainda menos “produtiva” que o metabolismo direto do homem com a natureza, tem uma relação muito mais íntima com o mundo que ela defende contra a natureza. Nas lendas e narrativas mitológicas antigas, ela assumiu muitas vezes a grandeza das lutas heroicas contra forças infinitamente superiores, como no caso de Hércules  , entre cujos 12 “trabalhos” heroicos constava o de limpar os estábulos de Augias. O emprego medieval da palavra trabalho, travail, arebeit, revela uma conotação similar de feito heroico que exige grande força e coragem e é realizado com espírito de luta. Mas a luta que o corpo humano trava diariamente para manter limpo o mundo e evitar-lhe o declínio tem pouca semelhança com feitos heroicos; a persistência que ela requer, para que se repare novamente a cada dia o esgotamento de ontem, não é coragem, e o que torna o esforço tão doloroso não é o perigo, mas a implacável repetição. Os “trabalhos” de Hércules   têm em comum com todos os grandes feitos o fato de serem únicos; mas, infelizmente, é somente o estábulo mitológico de Augias que fica limpo depois de despendido o esforço e realizada a tarefa.

Observações

[1O capital (Ed. Modern Library), p. 201. Essa fórmula é frequente na obra de Marx e sempre repetida quase verbatim: Trabalho é a eterna necessidade natural de efetuar o metabolismo entre o homem e a natureza. (Ver, por exemplo, Das Kapital, v. I, Parte 1, Capítulo 1, Seção 2 e Parte 3, Capítulo 5. A tradução inglesa padrão, Ed. Modern Library, p. 50 e 205, não alcança a precisão de Marx.) Encontramos quase a mesma formulação no v. III de Das Kapital, p. 872. Obviamente, quando Marx fala, como frequentemente o faz, do “processo vital da sociedade”, não está pensando por metáforas.

[2Marx denominou o trabalho “consumo produtivo” (O capital [Ed. Modern Library], p. 204) e jamais perdeu de vista o fato de que se tratava de uma condição fisiológica.

[3Toda a teoria de Marx está atrelada à intuição inicial de que o trabalhador, antes de tudo, reproduz sua própria vida ao produzir seus meios de subsistência. Em seus primeiros escritos, Marx pensava que “os homens começam a distinguir-se dos animais quando começam a produzir seus meios de subsistência” (Deutsche Ideologie, p. 10). É esse realmente o conteúdo da definição do homem como um animal laborans. Mais digno de nota ainda é o fato de que, em outros trechos, Marx não se satisfaz com essa definição, porque ela não distingue de modo suficientemente claro o homem dos animais. “A aranha realiza operações que lembram as de um tecelão, e a abelha envergonharia muitos arquitetos na construção de seus alvéolos. Mas o que distingue o pior dos arquitetos da melhor das abelhas é o fato de que o arquiteto erige sua estrutura na imaginação antes de construí-la na realidade. Ao fim de cada processo-de-trabalho, temos um resultado que já existia na imaginação do trabalhador desde o começo” (O capital [Ed. Modern Library], p. 198). É óbvio que Marx aqui já não se referia ao trabalho, mas à obra – na qual não estava interessado; e a melhor prova disso é que o elemento de “imaginação”, aparentemente tão importante, não desempenha papel algum em sua teoria do trabalho. No terceiro volume de Das Kapital, ele repete que o excedente de trabalho além dos limites das necessidades imediatas serve ao “prolongamento progressivo do processo de reprodução” (p. 872 e 278). A despeito de hesitações ocasionais, Marx permaneceu convencido de que “Milton produziu o Paraíso Perdido pela mesma razão pela qual o bicho-da-seda produz seda” (Theories of surplus value, Londres, 1951, p. 186).

[4J. Locke, Segundo tratado sobre o governo civil, Seções 46, 26 e 27, respectivamente.

[5Ibid., Seção 34.