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civilização

domingo 17 de outubro de 2021

Qual é a lei última de formação dos traços culturais vigentes numa determinada esfera da civilização? Eis uma questão que, aparentemente, revela escasso alcance filosófico, mas que realmente vai assumindo uma posição decisiva na especulação atual. Qual a origem e natureza dos bens e implementos culturais? Surgiram da simples inventividade humana, sob a pressão da necessidade, ou contaram com uma colaboração mais profunda? Devemos supor na protagonista cultural de outras idades a mesma “consciência utilitária” e as mesmas finalidades pragmáticas e técnicas que regem o homem contemporâneo? O grande etnólogo Jensen, discutindo o problema da gênese primeira dos bens culturais (Kulturguter), dos traços empírico-implementais de um círculo cultural, assinala a importância ímpar dessa questão para qualquer compreensão do passado. Essa compreensão foi por muito tempo deturpada e transviada pelos vetos mentais do positivismo e do racionalismo, que teimaram em reconstruir e pensar a vida total da história em termos da consciência do homem ocidental. A experiência da vida e das coisas do homem europeu serviam de fio condutor para a decifração de todos os produtos e manifestações espirituais de outros povos. Foi justamente a hegemonia universal de nossa perspectiva e de nossa [139] forma de conduta, do nosso fazer utilitário, causal e intelectivo, que foi sendo contestada por uma investigação mais profunda das formações culturais. O pensamento pioneiro de Leo Frobenius abriu nesse campo novas possibilidades de conhecimento e captação dos fenômenos espirituais e comunitários. Para esse pesquisador, não foram as adversidades do mundo, as misérias e dificuldades da existência que levaram o homem a prover-se de um sistema de invenções instrumentais e artísticas, de uma técnica utilitária de vida. A consciência limitante dos “fatos”, dificuldades e confinamentos só se manifestam num estádio tardio da vida de um povo. Na origem de uma trajetória de civilização só encontramos o “júbilo da ação” e a “grandiosidade titânica de uma concepção do Mundo totalmente transida de ideais”. Numa exuberante produção de formas e imagens, numa criatividade “interna” é que devemos encontrar a causa do aparecimento dos itens culturais. Para Leo Frobenius, antes da vontade dos “fatos”, existe a vontade dos “ideais”, o poder demoníaco-criador, o sentido lúdico, pujante e artístico. É assim que o paideuma e o protagonista cultural transformaram, por exemplo, o espaço geográfico no espaço “psíquico” ou intracultural, o céu astronômico no céu de seus deuses e a pura realidade da terra na morada lárica e acolhedora. “A existência dos ideais”, diz Frobenius, “é equivalente à faculdade de plasmar cultura, supondo que é capaz de transformar o mundo dos fatos num paideuma igualmente orgânico, de animá-lo através de um ato criador, a cujo efeito podemos dar a denominação de estilo”. Ao contrário de perscrutar a origem de tudo numa consciência vencida e anulada pelos “fatos”, pelas utilidades, urgências e limitações físicas e que só age e produz para conservar uma existência periclitante e miserável, Leo Frobenius, seguindo nesse ponto Nietzsche  , vê no ser-mais, no ploutos da vida o ponto de eferência de um ciclo cultural. E na ideia de expressão – Ausdruck –, de expressão anímica, procura o conceito dos fenômenos em vista, quando captados in status nascendi. Os bens culturais são expressos de uma alma, de uma concepção seletiva do mundo, e só podem ser realmente compreendidos, quando interpolados na protoforma da qual são [140] expressões parciais. Os ideais que integram essa concepções do mundo são “desígnios absolutos”, projetos originais e transcendentes aos “fatos”, que nascem de uma consciência jubilosa e primaveril. E para caracterizar a forma dessa consciência transida de ideais e puramente plasmadora, Frobenius reporta-se ao conceito de Jogo. [VFSTM  :139-141]

LÉXICO: civilização