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mística

segunda-feira 14 de fevereiro de 2022

Mística deriva do verbo grego myo e significa fechar-se; especialmente fechar os olhos, recolher-se. Por isso, mystikon é o oposto de phaneron (aberto, manifesto). Em Plotino  , a mística é pensada como haplosis, isto é, como máxima simplificação da alma racional, quando ela se retrai para o fundamento do seu ser. Para que se dê tal união, misteriosa, secreta, indizível, com o Uno, é mister deixar atrás de si a matéria. Não se trata, pois, na mística, de um sonho de visionário, nem é identificável com transes xamânicos ou com o enthousiasmos dos órficos e dos participantes dos ritos dionisíacos. A mística plotiniana não é deificação, mas assemelhação com Deus.

Na vivência da união mística, a alma entra, pelo assim dizer, no Santo dos Santos, que representa o abandono das imagens (as estátuas dos deuses) as quais simbolizam o singular ou o muito [1]. Aqui a alma repousa como Deus, no sétimo dia. Muitas vezes, também os místicos descrevem a sua união com Deus como a entrada num deserto. Deserto, aqui, não significa lugar vazio, mas é uma analogia, para representar a solidão da alma com o Uno. Tudo a alma abandonou (deserere, em latim), para defrontar-se com a dimensão divina. Então, a alma está despojada de tudo. Cumpriu o áphele pánta. É o instante da contemplação, com plena felicidade (En. VI, 7  ,31), numa vivência suprassensível, transracional, atemporal. É descanso no Uno [2]. Ek-stasis equivale ao excessus mentis dos medievais, ao arrebatamento (rapto) de Paulo, descrito em 2Cor 12, 2ss [3]. Somente o puro pode contemplar o Puro.

Não se pense, porém, que o êxtase seja dissolução do eu. Não é anulação, nem deificação, mas assemelhação com Deus [4]. [Ullmann  ]


gr. eupatheia = alegria da alma unida ao Bem; eupathein = estar pleno de alegria, na união com o Bem.
Plotinus   seems to dissociate mystical experience to some extent from emotion by making use of two different Stoic ideas, the initial shocks (ekplexeis) which are less than emotion, and the eupatheiai, or equanimous states, which are superior to emotion. For mystical experience of the highest divinity, the One, he coins the expression ‘shock without hurt’, which is echoed by Augustine   Confessions 11.9 in another context, and he describes the love felt in this experience as a eupatheia.
LÉXICO: mística; misticismo; mistificação; eupatheia

Observações

[1Cf. BEIERWALTES, op. cit., p. 346, nota 59.

[2"Ek-stasis nell’unificazione diventa stasis dei pensiero; in esso Eros, come stabile impulso al movimento che trascende, è giunto ai suo fine definitivo e perciò alia ’quiete’ in uno ’stato’ dei non-essere-piu-mosso, dell’essere orientato fissamente all’Uno o dell’unione (synousía) senza distanza con lui" (BEIERWALTES, op. cit., p. 131).

[3"Conheço um homem em Cristo, o qual há catorze anos, foi arrebatado (não sei se foi no corpo, se fora do corpo; Deus o sabe) até ao terceiro céu. E sei que este homem (...) foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis (...)".

[4"There (in the mystical union) is no consciousness of duality in that union; we are not aware of ourselves; but we are not destroyed or dissolved into the One, because even in the union we are still intellect out of itself, transcending its normal nature and activity" (ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA (Chicago, 1969), v. 18, p. 60).