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drama

domingo 17 de outubro de 2021

21. Inútil, por conseguinte, seria a simples negação da negação do diabólico. Inútil e infeliz expediente dialético, pois não há maneira de ver simbólico e diabólico assentes no mesmo plano, vê-los como a tese e antítese hegelianas, que uma à outra se destroem, quando reivindicam, as duas, a um tempo, absoluta validez. Eis o que nos faz pensar, preferentemente, em termos de retrocesso, e nos leva a dizer que a coisa é degenerescência do símbolo, que este é coisa ou coisas acrescidas de «ser» que elas não têm nem são. E, ao invés, falando aristotelicamente, que as coisas se materializam por privação de uma forma que só compete ao símbolo. Mas, a bem considerá-los, todos os símbolos têm por base duas coisas, embora talvez não se dê o inverso, isto é, que determinados pares de coisas diferentes, mas afins, sejam ou possam servir de base a um símbolo. Com tudo isto, só o que fizemos foi voltejar em redor do «símbolo». Ficamos sem saber qual seja o «ser» do símbolo; não penetramos nele tanto quanto é necessário para que não mais possa furtar-se à nossa interrogação. Algo está faltando. Ainda não depusemos bastante ênfase no nosso interrogar; ainda não insistimos no que nele resiste. Creio que falta desenhar os traços característicos do drama gnosiológico. Símbolo e coisa são personagens diferentes de dramas diferentes, representando, sobre tablados diferentes, diferenças em que os próprios cenários se diferenciam por força das ações diferentes. Talvez se dê o caso de ser o Diabo o autor do libreto do drama em que o Homem-coisa protagoniza a agonia dele no inter-relacionamento externo com o intra-Mundo coisístico; e como, tanto o Diabo, quando nós-coisa por ele feitas, só para si mesmos se voltam, só escutaremos um diálogo de surdos. Ainda há pouco nos impressionou o fato evidente de tal ser, na Antígona, a maior parte da interlocução das personagens em cena, com os coristas na orquestra. Bem sabemos que isso é o expediente feliz da «ironia trágica»; mas, correndo velozmente o caminho que nos separa dos gregos do século V, só verificamos que o Diabo é a face maléfica que muitas vezes ostentam os deuses de Sófocles. Tudo dá no mesmo: os concentrados não ouvem outros concentrados, e, uns e outros, em vão se arremessam palavras que aconteçam. [EudoroMito:109]


46. O drama ritual é simbolizante, querendo com isto dizer que, através dele, deixam, Homem e Mundo, de ser o que eram, isto é, só «homens humanos» e «coisas-objetos». Mas nada mais fácil do que tudo deslizar pela pseudo-superfície da trans-objetividade, para, aquém-horizonte da objetividade, se degradarem por fragmentação, drama, palco, cenários e atores. Porque a tal superfície é escorregadia e «para baixo», como dizem, «todos os diabos puxam». Por outro lado, como só a distração permite elevar-me até onde as «coisas» deixam de o ser, e tudo, na vida comum, exorta a que me concentre no lugar prefixado às «coisas» que sempre o são, passo a minha existência temporal agarrado a estas porque me desgarrei daquelas. Quem poderá passar sua vida distraído do Mundo seu e dos outros? A comodidade e a estabilidade é de lei — lei de uma existência tão estável e bem acomodada que, não soando importunos alarmes, eu poderei esquecer o perturbador pensamento de que, mais dia menos dia, tudo acabará para mim, ou que eu acabarei para tudo. Até posso olvidar-me de que a porta da vida e da morte abre e fecha, movendo-se a seu tempo nos gonços do tempo. Mas, a meu lado, grupos de meus semelhantes não me deixam que o ânimo se aquiete na renúncia [134] e na resignação. Se alguma vez provei o sabor da trans-objetividade, em que decorre o drama ritual simbolizante, porque só lá pode ocorrer, de novo assumirei a atitude, desempenharei o papel que me foi distribuído para representação do drama que metamorfoseia as «coisas» em «símbolos». Mas desta vez, ciente de como me desgarrei, vou segurar-me com firmeza à balaustrada que orla o horizonte da além-trans-objetividade; daí não é tão fácil voltar a cair, porque, sendo esse o limiar do Absoluto, sei que nele já estou de algum modo instalado, desde que vim a ser algo ou alguém a que ou a quem foi dado o ultrapassar horizontes, um, dois ou três que sejam. [EudoroMito:134-135]
LÉXICO: drama