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Uno

domingo 17 de outubro de 2021

Uno, Absoluto, Deus [theion] ou Bem sinonimizam nas Enéadas   de Plotino   [1]. Respigaremos, para este texto, alguns passos da obra do licopolitano, a fim de apresentar, de modo sucinto, o perfil do Uno-Deus. Guiar-nos-emos pelas palavras de Plotino   e por abalizados comentaristas.

Faria uma ideia errônea do Princípio Primeiro - o Uno - quem pensasse ser ele algo de todo abstrato, despojado de toda realidade, um número cardinal ou ordinal, um abismo em que impera o vazio. A essa ideia não corresponderia nenhum ente, nenhum conteúdo, nenhuma realidade. Tais assertivas, conforme veremos, são insustentáveis, quando alguém as quer aplicar a Plotino  .

Se alguém considerasse o Uno (Hén) como potência pura, isto é, matéria prima, em oposição a ato, também não estaria concorde com o pensamento do filósofo de Licópolis, porquanto Plotino   deixa claro que a dynamis não é potência receptiva: "O Uno é a potência (dynamis) de todas as coisas, porém não no sentido em que se afirma que a matéria está em potência, pois esta, sendo passiva, somente recebe" (En. V, 15, 34). O Uno é a dynamis de tudo, isto é, tem o poder de tudo gerar. A esse aspecto retornaremos.

De outro lado, Plotino   diz, paradoxalmente, que o Uno não pensa, que ele não é o Bem, nem que ele é. Depois afirma que ele é Super-Pensamento, Super-Bondade, Super-Ser. O Uno é epekeina tes ousias, isto é, além do ser ou acima do ser. "Ele basta a si mesmo, nada precisa procurar fora de si, estando acima de todas as coisas (hyper te penta onta)" (En. VI, 7  , 30-32). "Quando dizemos dele ‘o Bem’, não lhe conferimos um atributo, como algo que lhe pertence. Ele é ele mesmo" (En. VI, 7  , 38, 4-6). Não há mister usar o verbo "ser", dizendo: "Ele é o Bem". Uno e Bem são convertíveis e constituem perfeições simples.

E mais. Ele (Uno) não é tudo, nem parte do todo: "Ele é acima das coisas, é a sua causa e ele não é essas coisas" (En. V, 5  , 13, 19-20). Noutras palavras, ele transcende a tudo, mas, ao mesmo tempo, está em toda parte. "Se ele estivesse apenas em toda parte, seria o todo" (En. III, 9  , 4, 3). Teríamos monismo e não panenteísmo.

Porém, ao Uno não se lhe nega a perfeição encontrada nos outros seres. Se estes existem, é por ser o Uno o princípio [2] deles. Por conseguinte, necessariamente lhes é superior. A existência deles dá-se por participação (Cf. En. V, 5  , 4), ou seja, foram feitos. Tendo sido feitos, eles não se identificam com quem os fez [3]. Isso significa que no Uno as criaturas se encontram eminenter [4]. Por outra, "a causa não é a mesma coisa que o causado" (En. VI, 9  , 6, 54-55); "a causa de todas as coisas não é nada delas (ouden esti ekeinon)" (En. VI. 9, 6, 56). "O Uno não pode ser uma das coisas às quais ele é anterior" (En. V, 3  , 11, 19).

Por ser a arche de tudo, o Uno é mais perfeito e melhor que seus efeitos: "O criador (poioun) é melhor do que as coisas criadas, porque é mais perfeito (teleioteron)" (En. V, 5  ,13, 38).

Por essas indicações, que se poderiam multiplicar, já percebemos, com clareza, a distinção do Uno e do múltiplo e, ao mesmo tempo, a origem do múltiplo a partir do Uno. [Ullmann  :33-35]


O texto apresentado permite distinguir duas faces do Hen em Plotino  : de um lado, a indeterminação do Uno e, de outro, atributos a ele conferidos, como: ato primeiro, causa de tudo, simplíssimo, perfeitíssimo, etc. Dessarte, chega-se à origem do múltiplo, a partir do Uno. E seria impossível explicar os entes existentes sem uma causa eficiente, sem um Absoluto, sem o Uno.

Eis, em rápido escorço, alguns tópicos sobre o Uno-Deus de Plotino  , o qual, sem dúvida, pode ser denominado arauto e anunciador de muitos aspectos da filosofia patrística e medieval, bem como da teologia do medievo. Basta recordar o emprego da teologia negativa   (o conhecimento apofático de Deus) e a influência do licopolitano sobre a mística do Ocidente. [Ullmann  :39]


LÉXICO: Uno

Observações

[1"L’Uno (al quale spetta propriamente il nome di Dio), ossia il primo principio o rorigine in sé, non è essere ma è piuttosto ’sovra-essere’ (...)" (BEIERWALTES, Werner, Agostino e il neoplatonismo cristiano (Milano, 1995), p. 96).

[2Princípio, para o licopolitano, não se reverte de sentido lógico aristotélico, mas tem significação ontológica, porque o Uno gera o que vem depois dele, não-movido por cego instinto, mas porque é plenitude transbordante.

[3O Uno é "diverso de tudo"- panton heteron (En. V, 4, 1, 6); "Ele é só e desprovido das demais coisas" – monon kai eremon ton allon esti (En. V, 5, 13, 6); "Ele é para além do Ser"- epekeina tou ontos (En. VI, 6, 5, 38); "Ele é o primeiro e acima do ser" – protos autos kai hyperontos autos (En. VI, 8, 14, 43). À saciedade comprovam esses textos que Plotino confere um lugar de destaque ao Uno, acima das demais realidades.

[4"Since the One is the cause of the being of everything else, they are in the One. How? Virtually or eminently, and not in the manner in which they exist as finite beings" (GERSON, L. P., God and Greek Philosophy (London and New York, 1994), p. 208). Claras são a esse respeito as palavras de Plotino: "Mas como o Uno é princípio de todas as coisas? (...) Porque as possuía já. (...) Sim, já as possuía, mas não-distintas. Distintas são apenas no segundo momento, no Logos, onde já estão em ato. O Uno somente é a potência de tudo" (En. V, 3, 15, 28-33). Cf. etiam En. VI, 7, 32, 13-15; En. VI, 8, 21, 24-25.