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Abba

domingo 20 de março de 2022

Cristologia
Joachim Jeremias: Excertos de "A Mensagem central do Novo Testamento"

Deus "Pai" no Antigo Testamento

No Oriente Próximo, por mais que retornemos no tempo, sempre se encontra, familiar, a ideia mitológica do deus pai da humanidade ou de certos seres humanos. Povos, tribos e famílias se dizem proceder de um ancestral divino. É particularmente ao rei, enquanto representante do seu povo, que se atribui uma parte especial da dignidade e do poder de um pai divino. Toda vez que a palavra "pai" é usada para a divindade neste contexto, implica a paternidade no sentido de autoridade incondicional e irrevogável.

Estes são fatos muito conhecidos na história das religiões, mas o que é menos conhecido é que muito cedo já a palavra "pai", enquanto epíteto atribuído à divindade, está carregada de uma tonalidade particular. Num célebre hino sumério e acádico de Ur, o deus Lua, Sin, é invocado como "Pai misericordioso em suas disposições, que retém em sua mão a vida de todo o país". E do deus sumério-babilônico Ea se diz:

Sua cólera é como o dilúvio,
Ele se reconcilia como um pai misericordioso.

Para os orientais, por mais que recuemos no tempo, a palavra "pai" aplicada para Deus evoca de certo modo o que a palavra "mãe" significa para nós.

Isto ainda é mais verdade no Antigo Testamento. Aí, raramente se chama a Deus de "pai", apenas catorze vezes, mas cada uma delas é importante. Para começar, quando Deus é chamado de "pai", ele é honrado como criador:

Não é ele, porventura, teu pai,
que te fez seu,
que te formou e te consolidou? (Dt 32,6).

Porventura não é um mesmo o Pai de todos nós?
Não é um só Deus que nos criou? (Ml 2,10).

Como criador, Deus é o Senhor. Ele pode esperar receber a obediência em homenagem.

Por outro lado, sendo um pai, Deus é considerado misericordioso:

Como um pai se compadece dos filhos,
assim dos que o temem se apieda
o Senhor.
Pois ele bem conhece de que massa
somos feitos:
recorda-se que somos pó (SI 103,13s).

Porque Deus é o criador, está cheio de indulgência paternal para com a fraqueza de seus filhos.

É evidente que todas estas citações do Antigo Testamento refletem o velho conceito oriental da paternidade divina. Há, porém, diferenças fundamentais. O fato de que no Antigo Testamento Deus não é o ancestral, mas o criador, não é a menor. E o que é ainda mais importante: no Antigo Testamento, a paternidade divina atribui-se só a Israel e de uma maneira que não encontra nenhum equivalente. Israel tem uma relação toda particular com Deus. Israel é o primogênito de Deus, escolhido entre todos os povos (Dt 14,1s). Além disto, esta eleição de Israel como filho primogênito de Deus se originava, cria-se, num fato histórico concreto: o êxodo do Egito. Associar a paternidade de Deus com um fato histórico implica uma profunda revisão do conceito de Deus como Pai. A certeza de que Deus é Pai e Israel seu filho não se funda no mito, mas em um ato único de salvação realizado por Deus, do qual Israel foi o alvo na história.

  • Pai nos Profetas - DEUS-PAI NOS PROFETAS