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Filosofia Silêncio

domingo 20 de março de 2022

      

Marie Madeleine Davy: Excertos do livro "O Deserto   Interior"
Lendo as Sentenças dos Padres do Deserto  , vários autores notaram a raridade dos textos referentes a Cristo  , a Nossa Senhora, à contemplação e à vida apostólica. Aqui, este silêncio não é uma privação de palavras, mas seu ápice. Tal silêncio é mais significativo do que a palavra, porque contém o que os argumentos mais incisivos seriam incapazes de exprimir. Para entendermos o seu impacto, basta evocarmos os silêncios de Jesus, de que falam os evangelhos  . Quando Jesus se calava, passava-se alguma coisa mais importante do que as palavras. Essa profundeza do silêncio é apresentada nos Apotegmas. Eis um exemplo: Teófilo, arcebispo de Alexandria, foi visitar o aba Pambo para receber   dele uma "palavra de vida". Este não disse nada. Os irmãos intervieram em favor do visitante contristado, rogando ao aba que falasse, ao que ele respondeu: "Se ele não se edificou com o meu silêncio, não se edificará com as minhas palavras". Citando esse texto, o introdutor dos Apotegmas acrescenta: "Por mais espontâneos que muitas vezes apareçam nos textos que no-los apresentam, os Apotegmas são fruto   de uma longa e lenta germinação no silêncio do deserto. Com dificuldade   foram arrancados desse silêncio e por ele continuam sempre envolvidos" (Ibid.).

Essa qualidade   de silêncio é, sem dúvida, mais oriental do que ocidental. Ela é encontrada, por exemplo, em Sri Ramana Maharshi  , e é frequente nos sábios da Índia. No Ocidente, consideraríamos incorreto se, ao visitarmos uma pessoa  , ela nos recebesse, mas se calasse. Ficaríamos muito "sentidos" de nos termos incomodado por "nada", tão difícil é para nós compreendermos que o silêncio é mais eloquente do que as palavras, pois o silêncio jorra do mais profundo.

Tal silêncio se parece também com o pudor  . O "segredo do rei" não deve ser formulado, ele "transpira" através do silêncio, e não está necessariamente presente   nas palavras. Entretanto, é bom repeti-lo, o silêncio pode também camuflar uma loquacidade interior; neste caso, ele é hipócrita, e deve ser evitado. Daí a variedade dos silêncios e a profundeza ou a superficialidade do seu conteúdo.

Emmanuel Carneiro Leão  : Aprendendo a pensar  
Desta universalidade do silêncio dá testemunho toda experiência criadora da condição humana. Pois o vigor do silêncio não está nem em se aprender   a refletir, nem em se ensinar a agir. O vigor do silêncio é deixar ser o nada   da realidade em toda realização   de qualquer real. A fala encontra o viço mais originário deste deixar ser no pensamento dos pensadores, na poesia dos poetas, na convivência dos homens. Por isso mesmo, Lao- Tsé nos reconduziu ao coração   de nossas línguas, ao insinuar a vigência do silêncio em todo discurso: “Falam-se palavras e se apalavram falas / Mas é no silêncio que mora a linguagem”

Buzzi   - Arcângelo Buzzi
O introito ao pensar é o silêncio. Silenciar   é colocar-se num estado   de calmaria. É não-agitar-se. É não potencializar o que se pode. É a morte da vontade de poder. Para que tudo isso? Precisamente para permitir que o ser   em sua verdade se dê ao pensamento, diga ele mesmo quem é.

Depois da semeada, o agricultor entrega o campo   ao silêncio. Para. Não agita mais a terra  . Recolhe as ferramentas. Não trabalha, apenas visita o campo. Visitas de contemplação das sementeiras. Ele sente que no silêncio da terra algo de extraordinário está para acontecer. É da terra que recebe o dom da vida, os frutos de seu sustento. O homem   que pensa é qual agricultor que dispõe, prepara, ex-põe o pensamento ao ser. Nessa silenciosa dis-posição que é toda empenho, escuta, aguarda a revelação do ser, contempla-o em sua verdade primeira, originária. É próprio do sábio recolher na ação a verdade do ser e a liberdade do agir:

«Disse o mestre ao discípulo:

  •  limpa o jardim  ! O discípulo varreu limpo o jardim. Disse o mestre:
  •  não basta! O discípulo espanou limpo as ramagens e os troncos das árvores. Disse o mestre:
  •  não basta! O discípulo lavou limpo as pedras ao longo do caminho   e disse:
  •  nada mais resta a fazer. O mestre sacudiu as árvores. Suaves, caíram folhas sobre a areia. Disse o mestre ao discípulo:
  •  limpar é deixar ser».
    (Cf. Takagami Kakusho, Han-Nya-Shin-Gyo Kogy, pp. 124-125, Ed. Kadogawa, Col. Kadogawa, n. 468, Tokyo 1949).