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Da Divisão da Natureza

sexta-feira 29 de julho de 2022

    

O pressuposto da investigação de João Escoto é o acordo   intrínseco entre razão   e fé; entre a verdade   a que chega a livre investigação e a que é revelada ao homem   pela autoridade   dos Livros Sagrados e dos escritores iluminados. «Não há salvação   para as almas dos fiéis se não em crer no que se diz com verdade sobre o único princípio das coisas, e em entender o que com verdade se crê» (De div. nat., II, 20). A autoridade das Sagradas Escrituras é indubitavelmente indispensável ao homem, porque só elas podem conduzi-lo aos lugares secretos em que reside a verdade (I, 64). Mas o peso da autoridade não deve, de forma alguma, afastá-lo daquilo que a reta razão o persuada. «A verdadeira autoridade não cria obstáculos à reta razão, nem a reta razão cria obstáculos à autoridade. Não há dúvida de que ambas dimanam de uma fonte   única, isto é, da sabedoria   divina» (I, 66). Mas a dignidade   maior e a prioridade da natureza correspondem à razão, e não à autoridade. A razão nasceu no princípio dos tempos, juntamente com a natureza: a autoridade nasceu depois. A autoridade deve ser aprovada pela razão, de contrário poderá não parecer sólida: a razão não precisa de ser apoiada ou corroborada por qualquer autoridade. Em suma, a própria autoridade nasce da razão, porque a verdadeira autoridade não é mais que a verdade descoberta pela razão dos Santos Padres e por eles transmitidas por escrito em benefício da posteridade (I, 69). E João Escoto coloca na boca do mestre, que é o principal interlocutor do diálogo  , um enérgico convite à livre investigação: «Devemos seguir a razão que procura a verdade e não está oprimida por qualquer autoridade e que de nenhuma maneira pode impedir que seja publicamente exposto e difundido aquilo que os filósofos procuram assiduamente e com dificuldade   conseguem encontrar» (II, 63).

Esta enérgica afirmação   da liberdade de investigação, que faz de Escoto Erígena   um sobrevivente exaltado do espírito   filosófico dos gregos, não implica neste autor qualquer limitação   ou negação da religião. E isto porque a religião não se identifica com a autoridade, mas com a investigação. Religião e filosofia são uma e a mesma coisa: «Que significa lidar com a filosofia senão expor as regras da verdadeira religião, por meio das quais a suma e principal causa   de todas as coisas, isto é Deus  , é humildemente adorada e racionalmente investigada? (De praedest., I). João Escoto, neste ponto, está muito próximo do espírito   de investigação agostiniana, para a qual a fé é mais um ponto de chegada que de partida, e no término da longa e laboriosa via da investigação, e muito mais um princípio, uma direção  , um guia da investigação, do que um limite ou um obstáculo. E de fato, o pressuposto agostiniano da Verdade suprema, que se revela e afirma na investigação humana, volta a repetir-se em Escoto Erígena. A natureza humana considerada por si, é uma substância   em trevas que, não obstante, é capaz de participar da luz da sabedoria. Quando o ar participa do raio solar não significa que o mesmo seja luminoso por si, mas pelo esplendor do sol   que nele aparece. Assim acontece com a parte racional na nossa natureza quando participa do Verbo  , ou seja, da Verdade divina, que por si só não compreende as coisas inteligíveis e Deus e apenas as conhece por intermédio da luz divina que nela existe (De div. nat., II. 23).

Na investigação humana quem encontra, não é o homem que procura, mas a luz divina que no homem procura. A palavra de Jesus  , segundo S. João: «Não sois vós que falais é Deus que fala em vós» é entendida por Escoto da seguinte forma: «Não sois vós que me compreendeis, sou   Eu que me compreendo a Mim próprio   em vós, através   do meu espírito» (Hom. in Joh., p. 291-A). [Excertos de Nicola Abbagnano   — História da Filosofia]


Ver online : JOÃO ESCOTO ERÍGENA