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Coomaraswamy (PVB:63-65) – Caminho do Meio

domingo 20 de março de 2022

      

Esta doutrina importantíssima, que é platônica, aristotélica e escolástica, tanto como bramânica e budista, tem tantas aplicações quantas alternativas possui; se se escolhe entre este mundo e qualquer outro (que se opõe como as "orlas" de um mar) este é apenas um caso particular.

O verdadeiro "habitante do fim do mundo (lok’anta-gu) não está ligado à existência neste mundo nem a nenhum outro, por mais alto que seja; pois todos os seres (satta), os deuses como os homens, estão presos nas correntes da morte" (Samyutta Nikaya I, 97, 105). Há sempre dois   extremos (anta); é perante o extremista (anta-g-gahika) que dá um valor   absoluto a um ou outro, que Buda   propõe o que é mediano  ; o verdadeiro "Caminhar com Deus  " (brahmacariya) é um caminho   do meio. Desde o tempo em que era Bodhisatta, após ter sido criado na abundância, depois de ter mortificado a carne   quase até morrer  , o Mestre compreendera que nem um nem outro destes extremos o conduziria ao conhecimento que procurava e que obteve seguindo o Caminho do Meio. (Vinaya-Pitaka I, 10). Da mesma maneira, a Pureza   não se obtém pela virtude, como também sem ela (Suttanipata 839) ; trata-se de ser puro não somente do vício mas também da virtude. O mesmo se dá com todas as "teorias" (ditthi), todas as afirmações e negações: é (é o erro   eternalista) e não é (é o erro   aniquilacionista) não são nem uma nem outra das definições exatas da realidade última (Samyutta Nikaya II, 19-20, 117) : como para Bvethins, "a fé é uma média entre heresias contrárias". Isto não quer dizer que o Caminho do Meio tenha uma dimensão; se se quisesse localizá-lo no espaço, o fim não estaria aqui, nem além, nem entre os dois (Udana 8) e não é "contando seus passos" mas em si mesmo   que se chega ao fim do mundo (Samyutta Nikaya I, 61-62; Anguttara-Nikaya II, 48-49; Samyutta Nikaya IV, 94). O tempo é encarado da mesma maneira, e é talvez este o lado mais interessante do princípio atomista. A existência (isto é, a origem   e a dissolução) de todas as coisas, é momentânea (khamika, Visuddhimagga. I, 230, 239; Dpvs. I, 16) como ela o era para Heráclito   (cf. Plutarco  , Moralia  , 392 a. E.) Este instante   (khana) no qual todas as coisas surgem, existem e cessam de ser simultaneamente, é este presente   sem duração que separa o passado do futuro e dá a ambos uma significação. O tempo, no seio do qual sobrevém a mutação, não é nada mais que a sucessão ou fluxo de instantes análogos  , cada um dos quais sendo em si fora do tempo [1] é nosso Caminho do Meio (Anguttara-Nikaya IV, 137). A vida, tal como a conhecemos empiricamente, é o campo   das ações transitórias, e são elas, precisamente, das quais herdamos as consequências. Por outro lado, as atividades imanentes, permanecendo confinadas no agente  , não envolvem este nos acontecimentos exteriores, e, pela mesma razão, permanecem inacessíveis à observação. Várias expressões budistas (por ex. thit’ato (Samyutta Nikaya m, 55; Suttanipata 519, cf. 920 que se opõem ao caráter transitório aniccam de tudo o que é não-Ipseidade  , implicam a imobilidade do Eu liberto. Daí resulta que a vida transcendente, supra-lógica, do Eu liberto, está contida no Eu. Os instantes tomados em si mesmos são apenas um só; sua sucessão aparente é convencional.

O "instante" sem duração, consequentemente, é nossa mais bela ocasião: — "é hoje o dia da salvação" — e vemos Buda dirigir elogios aos religiosos que "aproveitaram seu instante", e censurar os que o deixaram escapar   (Samyutta Nikaya IV, 126; Suttanipata 333). Os instantes, de fato, não escapam; mas quem consegue segurar um, escapa de uma só vez a sua sucessão; para o Arahant que "expirou", o Tempo não mais existe. Seja qual for o caso, é pelo princípio de causalidade que Buda ensina o Caminho do Meio: sejam quais forem os dois extremos, é o desejo, literalmente a "sede" (tanha  ) que "semeia" o ser   para um porvir renovado; é somente pensando no Meio que se evita ser contaminado por um extremo ou por outro (Anguttara-Nikaya III, 399-401; Suttanipata 1042). Platão  , igualmente, diz que é segurando bem o fio de ouro da Lei comum que o boneco humano evitará os puxões contrários e desordenados que nos puxam pra cá e para lá, na direção das boas ou más ações, determinadas pelos nossos desejos (Das Leis, 644).


Ver online : Ananda Coomaraswamy – Pensamento Vivo de Buda


[1É verdade que os "homens têm o sentimento de que o que não pode ser formulado em função do tempo não pode ter significação", mas "a noção de um ser imutável e estático deve se entender mais como indicando um processo de uma vivacidade tão intensa que ele compreende ao mesmo tempo o princípio e o fim" (W. H. Sheldon, The Modern Schoolman, XXr 133). "Mais a vida do eu se identifica com a vida do não-eu (isto é, o Eu), mais se vive intensamente (Abd-el-Hadii no Véu de Ísis, jan. 1934).