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Javary Nomes Deus

domingo 20 de março de 2022

      

Geneviève Javary: Excertos traduzidos por Antonio Carneiro dos Faivre   Cadernos do Hermetismo - Cadernos do Hermetismo, "Cabalistas Cristãos"

O problema dos nomes divinos na Cabala   cristã passa, em nossa opinião  , por dois   polos: um é o Tetragrama, as quatro letras He, Vav, He, Iod, não vocalizáveis, que representam Deus   em um grande número   de textos da Primeira Aliança, o outro é Sekina. Esta palavra   tem uma história: nascida no primeiro século de nossa era nos Targumim, sobre uma raiz hebraica significando habitar  , S K N, era empregada cada vez que o texto bíblico parecia deslizar para o antropomorfismo. Evoca Deus, não como o Tetragrama em sua essência, mas, principalmente Deus se manifestando, e é porque tem por equivalentes as palavras Glória e Presença. (A propósito   do tema da Sekina).

Um problema se coloca agora e poderá servir de conclusão. Se o Nome é Deus, ou se Deus é seu Nome, conhecer o Nome de Deus, não é se apossar do poder   de Deus para fins mágicos? Dito de outra forma, qual é a relação   entre a Cabala e a Magia  ? A Cabala não é senão uma magia? Sem dúvida Pico della Mirandola  , e em seguida Reuchlin - Jean Reuchlin, parecem ter tomado uma resolução. Mas, ainda necessitar-se-ia ler esses autores para não cometer o erro   sobre o sentido que deram à palavra magia. Comparando àqueles que rogam aos marinheiros que joguem a âncora sobre a costa imóvel   e assim, graças à uma corda ou um cabo, poderão se lançar em direção   a terra  , acrescenta:
Por semelhantes maneiras  , por meios de sinais sensíveis, nos parece que atraímos a divindade   invisível   enquanto, apesar disso, de fato nos atiramos nós-mesmos que somos móveis em direção à divindade imóvel.

E conclui:

Sobre esse fundamento secreto repousam todos os sacramentos e os ritos das cerimônias (Ibid.).

Justificando em seguida a Cabala em seu conjunto   e a proliferação dos Nomes de Deus que, multiplicados ao infinito  , parecem de fato perder toda significação, escreveu:

As palavras sem significação têm mais poder de magia que as que possuem uma. Não importa qual palavra tem, de fato, em magia, virtude  , desde que esteja formada pelo vocábulo de Deus, pois nisso que a natureza exerce primeiramente uma força mágica é o vocábulo de Deus.

Assim falou Pico della Mirandola).

Esta afirmação surpreendente une, de fato, o que temos dito no início deste artigo: Deus é desconhecível e, então, seu nome é inefável; não possuímos senão sinais, que, se trata da Cabala, são impronunciáveis. A razão   da multiplicação dos Nomes de Deus e de sua falta aparente de significação é a fraqueza   humana. O além do homem   está o anjo  , o além dos anjos Deus, e para se elevar até esses espíritos a despeito de seu peso, o homem deve enternecer seus sentidos; mas « cada um é afetado por um elemento   diferente e todos não o são igualmente pelo mesmo ». É então, diz Reuchlin, para nos ser útil que:

os anjos clementes encontraram figuras, caracteres, formas e palavra. Eles nos propuseram, a nós mortais  , essas palavras desconhecidas, estupefacientes, nada significando senão o uso ordinário da língua, mas nos induziram, provocando a admiração de nossa razão, a procurar assiduamente os inteligíveis, depois a os venerar e a os amar  .

É então a razão pela qual os homens veem anjos com aspectos sensíveis tão diversos: fogo  , água e rio, vento e ar, pássaros, gemas, energia da profecia  , ou espírito   os habitando, e de outros os verem « na figura das letras e dos caracteres ».

Sekina foi sem dúvida por vezes utilizada para fins mágicos. Mas, isso se deveu à fraqueza do homem ou à sua perversidade. O único efeito do poder desse nome deve ser de lançar à Deus que é o conhecível, não-visível, inefável; nosso corpo enfermo, graças à emoção provocada em nossos sentidos pelos sinais múltiplos que evocamos. Nós não lançamos Deus para nós, nós é que nos lançamos, nós-mesmos, em direção a Ele.