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Tauler Amor

domingo 20 de março de 2022

    

Faggin Tauler   - TAULER, SEGUNDO GIUSEPPE FAGGIN

Mais do que Eckhart  , Tauler coloca o centro   da elevação da alma   no amor. "Vós acreditais que é amor quando experimentais grandes sensações, prazer e alegria  . Mas isto não é amor. O amor é algo muito diferente: quando entre as privações e no abandono mais completo   sentirdes algo que arde em vós e entre contínuas torturas subsistirdes no justo abandono a Deus   e em meio aos sofrimentos sentirdes um desejo de dissolver  -se em outro ser e, queimados pelas privações, um desejo de murchar e tudo isto em completo abandono: este é o amor e não o outro no qual vós acreditais". O verdadeiro amor é fidelidade ao Eterno e liberdade interior  . Mas este também, como toda a nossa vida espiritual, se aperfeiçoa através   de três graus principais: "Primeiro é o "amor doce", sensível  , imaginativo, que se pode comparar com uma estátua de madeira   dourada... Também o amor doce está dourado pela boa intenção  , mas tirando-a, o que resta tem pouco valor  , mesmo estando pleno   de felicidade   para a natureza sensível. Contudo, Deus se vale desta felicidade para atrair o homem  ". Nesta primeira etapa a alma necessita referir-se com a imaginação   à vida exterior de Cristo  , a seus episódios terrenos, a seus milagres; precisa sentir-se comovida e exaltada. Para isto servem, sem dúvida,, também os ritos litúrgicos e a exterioridade do culto e tudo aquilo que é instrumento de uma momentânea exaltação do sentimento. Mas também este é o cativeiro do espírito  : o amor doce é algo imediato que toca os sentidos e que um exercício mais austero e completo de renúncia deve superar, pois unicamente além de toda a imagem e de toda a sensação brilha, no fundo, a verdade   puríssima, na qual deve irromper sem dilações sentimentais.

O segundo é o "amor prudente", que se pode comparar com uma imagem de prata. Por este amor a alma se enfrenta, mediante o pensamento   com a vida íntima da Trindade  : considera o segredo do mistério interior e diante dele questiona sua necessidade   de dispersão exterior; considera sua eternidade  , que não tem passado  , nem futuro e coloca diante dela o fluir e a instabilidade do seu tempo e de sua vida. Tudo o que a alma gozou no amor doce, esquece agora como coisa grosseira e estranha; mas, desaparecidos aos consolos exteriores, a alma transportada para o alto mar por seu impulso interior, se encontra só e abandonada e sente surgir   novamente todas as ansiedades, tentações e misérias sobre as quais havia triunfado. O amor é prudente se sabe vencer os últimos chamados da criatura e permanece só em si mesmo  , confiando no Invisível  . A noite da alma — ou, como a chama também Tauler, o inverno do espírito   — deixa o justo enlanguescer na aridez, nas trevas e no gelo, sem consolos nem clemências, como enlanguesceu Cristo, abandonado pela Divindade  , à qual, contudo, estava naturalmente unido. Nesta noite da alma o homem não pode esperar que outra criatura o liberte da angústia, pois deste modo estaria colocando um ser inferior   no lugar de Deus e retardaria o nascimento divino; não deve buscar consolo em ninguém, por maior que seja a dor  , senão esperar, não de sua iniciativa e da luz natural mas unicamente de Deus, a libertação suprema. Por conseguinte, mais ainda que no amor doce, fica sempre no amor prudente uma certa inquietude pelo fato de que a alma não pode ser de Deus tanto quanto gostaria. Os encantos do sentimento foram esquecidos para sempre, mas o Gemüte (v. eso anthropos), que encontrou já o seu caminho, não submergiu ainda no seu fundo originário.

Com o "amor forte  ", o desejo mais abrasador se satisfaz. Este amor é a imagem áurea com que se encerra o místico itinerário. Chegado ao alto mar, o barco da alma afunda prazeroso com a rede e tudo se rompe. O nada criado se afunda no Nada incriado. O abismo   chama para si o abismo e os dois   abismos se transformam em uma única unidade  , um puro ser divino. O espírito se perde no Espírito de Deus e se anula no mar sem fundo. O amante submerge no Amado   e se perde nele. Agora a alma se despreza, se esquece completamente de si e não sabe mais nada de si. Mesmo que o corpo esteja cheio de sofrimentos, a alma os aceita com prazerosa resignação e nas próprias dores goza de uma felicidade que nenhuma mente   humana pode compreender. O homem adquire então sua essência   mais pura e se torna tão bom e benévolo para todos que não se pode descobrir nele nenhum defeito  . É misericordioso e está cheio de confiança  ; é pacífico e de bom coração   e não se pode supor que semelhantes criaturas possam jamais separar-se de Deus. Portanto,a luz divina os ilumina desde o íntimo e lhes indica o que devem fazer, por quem devem rezar, o que devem dizer, pois a união   é perfeita e a alma não é mais que um instrumento nas mãos do Eterno.