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Bréhier (HF) – Problema político

quinta-feira 18 de agosto de 2022

    

Sucupira Filho

É a partir desse momento que se vigoriza o pensamento   político subordinado à moral e à psicologia. Mas não se encontra na situação   da dialética, a qual não abandona o mundo das ideias  , porém, ao contrário, se despedaça, incessantemente, contra os fatos. Platão  , repetimos, quer ser, não um utopista, mas reformador. Como reformador, deve dar-se conta da natureza dos homens e das coisas, tais como se apresentam.

O que é estranho nesse reformador é que, ao contrário dos sofistas, está bem longe de crer no progresso. Muito meditou ele sobre a história e a evolução das sociedades, como sobre a história das almas individuais, misturando, além disso, o mito   e a lenda à observação   psicológica. Mas a observação, como o mito, põe sempre a descoberto a dupla conclusão de que a parte de justiça e de virtude, que existem em um indivíduo   ou em uma sociedade, depende, sobretudo, de condições externas, de uma feliz oportunidade  , e que, se há mudanças nas sociedades, estas tendem sempre para o melhor ou pior  , de acordo com um ritmo cíclico que obriga a sociedade a repassar por várias etapas. A legislação, mesmo de um filósofo, tem por fim servir-se o melhor possível das condições de fato que encontra diante de si, e também, deter ou entravar as mudanças, dar à sociedade a maior estabilidade possível. Jamais, pelo contrário, se percebe, em Platão, a ideia de uma reforma positiva, de verdadeira invenção social; trata-se sempre de manter e conservar, de separar ou suprimir. É muito significativo o mito em que mostra que os homens não evitaram a decadência completa senão porque os deuses os fizeram conhecer o fogo  ; o aprendizado das artes, e lhes deram os grãos de trigo   (Político, 274 e). A iniciativa dos homens não teria possibilidade de alcançar essas descobertas.

A finalidade da reforma do filósofo não pode ser outra senão imitar, tanto quanto possível, o estado   social mais perfeito de que tenha ideia, e de tomar, do jeito que puder, a sociedade tal como se apresenta naturalmente, a fim de impedir que caia mais baixo (Leis, IV, 713 e). Jamais cuida de promover um verdadeiro progresso. Se uma sociedade apresenta as condições exigidas para que nela se apliquem os esforços do filósofo, será por casualidade, por uma série de circunstâncias independentes da vontade humana, graças, por exemplo, a condições de clima e de solo (704 a sq); essas condições são, por conseguinte, o efeito de um acaso ou da providência divina.

Disso decorre o caráter positivo e realista, por vezes conservador, da política platônica; e, ainda, a inclinação  , crescente com a idade, pela história e as antigas tradições (Prólogo do Timeu   e Crítias). Como consequência, a condenação de toda política de expansão, que fizera a grandeza   de Atenas, mas também a subversão dos costumes (Górgias  , 508 e - 519 b). Platão adstringiu-se, unicamente, a observar   a forma tradicional da cidade grega. Entende-se, por exemplo, que, na República  , é uma cidade grega que ele quer administrar (470 e). Se mais tarde, no Político (262 cd), ele considerou ridícula a divisão   da humanidade em gregos e bárbaros, não é menos verdade que quer, antes de tudo, fortalecer o helenismo, estabelecer a paz   entre as cidades e eliminar a prática de pilhagem e de redução à escravidão que acompanhavam as vitórias de uma cidade sobre outra (República, V, 469 b sq).

Original

C’est à partir de ce moment que l’élan est donné à la pensée politique, qui se subordonne et la morale et la psychologie. Mais elle n’est plus dans la situation de la dialectique qui, elle, ne quitte pas le monde des idées ; elle se brise au contraire sans cesse contre les faits. Platon, répétons le, veut être non pas un utopiste, mais un réformateur ; comme réformateur, il doit tenir compte de la nature des hommes et de la nature des choses, telles qu’elles sont données.

Ce qu’il y a d’étrange chez ce réformateur, c’est qu’il est tout au contraire des sophistes   bien loin de croire au progrès. Il a beaucoup médité sur l’histoire et l’évolution des sociétés, comme sur l’histoire des âmes individuelles, mêlant d’ailleurs à l’observation psychologique précise le mythe et la légende ; mais l’observation comme le mythe met toujours en lumière cette double conclusion que la part de justice et de vertu qu’il y a en un individu ou en une société dépend surtout des conditions extérieures, d’une heureuse chance, et que, s’il y a des changements dans les sociétés, le changement a toujours lieu vers le pire ou au mieux selon un rythme cyclique qui fait repasser la société par les mêmes étapes. La législation, fût ce celle d’un philosophe, a pour but de se servir le mieux possible des conditions de fait qu’il trouve devant lui, et aussi, d’arrêter ou d’entraver les changements, de donner à la société la plus grande stabilité possible. Jamais, au contraire, on ne voit, chez Platon, l’idée d’une réforme positive, d’une véritable invention sociale ; il s’agit toujours chez lui de maintenir et de conserver, ou bien d’élaguer et de supprimer ; il est bien significatif, le mythe qui raconte que les hommes n’ont évité la décadence complète que parce que des dieux leur ont fait connaître le feu, appris les arts, et donné les graines du blé (Politique, 274e) ; l’initiative des hommes n’aurait pu les mener jusque là.

Le but de la réforme du philosophe ne peut être alors que d’imiter autant qu’il est possible l’état de société le plus parfait, dont il possède l’idée, de prendre en quelque sorte la société au niveau où elle existe actuellement pour l’empêcher de tomber plus bas (Lois, IV, 713e) ; mais jamais il ne s’agit de promouvoir un progrès véritable. Si une société présente les conditions requises pour que s’y appliquent les efforts du philosophe, c’est par chance, par une série de circonstances indépendantes de toute volonté humaine, grâce, par exemple, à la faveur du climat et du sol (704 a sq.), que l’on fasse d’ailleurs de cette chance l’effet d’un hasard ou de la providence divine.

De là le caractère positif et réaliste, conservateur même parfois, de la politique platonicienne ; de là, son goût, croissant avec l’âge, pour l’histoire et les antiques traditions ; de là, sa condamnation de toute la politique d’expansion qui avait fait la grandeur d’Athènes, mais aussi bouleversé les mœurs . Il est resté attaché uniquement à la forme traditionnelle de la cité grecque. Il est bien entendu, par exemple, que dans la République, c’est une cité grecque qu’il a à administrer (470e). Si plus tard, dans le Politique   (262 cd), il a jugé ridicule la division de l’humanité en Grecs et Barbares, il n’en est pas moins vrai qu’il veut avant tout fortifier l’hellénisme, ramener la paix entre les cités et faire cesser les pratiques de pillage et de réduction à l’esclavage qui accompagnaient les victoires d’une cité sur une autre .


Ver online : Émile Bréhier