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Filho do Homem

sexta-feira 22 de julho de 2022

    

Roberto Pla  : Evangelho de Tomé - Logion 48

No AT e nos livros apócrifos como o Enoque   etíope, se usa a mesma locução "Filho   do homem  " com um sentido paralelo ao evangélico. Esta identidade não poderia ser reconhecida desde a vertente «manifesta» de Cristo  , mas resulta evidente   se se estuda dede o ponto de vista do Cristo «oculto», Senhor de Davi e "glória  " visível   dos profetas, "desde antes" de Abraão, pois o Filho do homem é o homem superior imortal, o Espírito  , a essência  . Seu emprego é uma circunlocução para referir-se ao Si mesmo  , "ao-que-é".


Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 40

Há duas vertentes de Cristo, ou melhor duas raízes de onde partir para uma investigação cristológica: a esfera   manifesta, que estuda a Jesus em sua dupla natureza humana e divina, manifestada no mundo, feita uma somente em Jesus Cristo, e a esfera oculta que tenta apreender o Cristo preexistente, eterno, enquanto Filho do homem, do qual todas as escrituras dão testemunho (Jo 5,39).

A cristologia manifesta vem sendo praticada e estudada por muitos desde o começo do fato cristão, e mercê a ela, e na medida em que essa cristologia alcançou seus objetivos exegéticos, a cristandade ama e conhece Jesus de Nazaré, que nasceu de Maria Virgem em Belém de Judá, e que depois de haver proclamado e ensinado a Boa Nova foi crucificado no Gólgota, e aos terceiro dia ressuscitou e subiu ao Pai.

Segundo a ordem manifesta deve-se interpretar os Evangelhos   no sentido de que o Filho único, “invisível  ”, se revelou ao mundo em Jesus de Nazaré, o Cristo “visível”. Esta seria a exegese   tradicional da cristologia manifesta.

Mas se o texto se interpreta “além disso” em ordem oculta, segundo a vertente do Cristo interior  , há que entender que o Verbo   (Palavra), enquanto Filho do homem, “invisível”, se revelou desde o princípio em distintas épocas e lugares aos eleitos que foram ungidos pelo espírito de Deus  .

A Palavra foi, com efeito, semeada em cada homem ao nascer [1], e isso é o que em ordem oculta quer dizer o texto quando afirma que pôs sua morada entre nós  . A Palavra semeada é o Filho do homem, oculto, desconhecido   pela consciência   da maioria dos homens, até que um dia se revela ao eleito   em cumprimento da sentença evangélica que afirma que "nada há de oculto que não seja para ser manifesto  " [2].

Há que entender que o Filho único, o manto de Glória em que se envolve o Pai, é o Filho do homem, a Palavra semeada (vide Parábola do Semeador como morador oculto em cada homem que vem a este mundo. Quando se revela a um eleito, a uma alma   purificada virginal, se descobre como o Cristo eterno, preexistente, “do qual todas as escrituras dão testemunho”, porque Cristo é sempre, desde o princípio, um só e o mesmo. E este é o mistério que há que revelar, a obra que a cada um corresponde cumprir, pois a consumação   do homem consiste em ser “perfeitamente um”.

Quando o evangelho diz que a “Palavra se fez carne   e estabeleceu sua morada entre nós  ”, teremos encontrado a porta da bem-aventurança, se é que estamos preparados para entendê-lo em ordem oculta. Segundo o texto todos somos depositários do Filho do homem, embora muitos sem havê-lo recebido ainda em sua consciência; mas ele está bem próximo de nós, como hóspede eterno em nosso templo   de barro, mortal  .

Isso é o que diz o saltério com outras palavras que o evangelho, em testemunho do Filho do homem, porque o salmista “também falava dele”: “Sua salvação   está próxima, sua glória habita em nossa terra  ”. (Sl 85,10)



[1E os que estão junto do caminho são aqueles em quem a palavra é semeada; mas, tendo eles a ouvido, vem logo Satanás e tira a palavra que neles foi semeada. (Mc 4,15)

[2Porque nada está encoberto senão para ser manifesto; e nada foi escondido senão para vir à luz. (Mc 4,22)