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Evangelho de Tomé - Logion 103

domingo 20 de março de 2022

      

Pla

Jesus   disse: Bem-aventurado   o homem   que sabe em que momento da noite virão os ladrões, de maneira que se erguerá, reunir  á sua (força?), e se cingirá os rins, antes que entrem. [Servidor Vigilante]

Puech

103. Jésus a dit : Heureux l’homme qui sait [en quelle] partie (de la nuit) viendront les voleurs, si bien qu’il se lèvera, rassemblera sa [ ] et se ceindra les reins, avant qu’ils n’entrent.

Suarez

1 Jésus a dit : 2 heureux l’homme qui sait 3 en quel point les pillards pénètrent; 4 si bien qu’il se dressera, 5 rassemblera sa force 6 et prendra déjà appui sur ses reins 7 avant qu’ils ne s’introduisent.

Meyer

103 Jesus said, “Blessed is the person who knows at what point [This may refer to either the time or the place of entry.] the robbers are going to enter, so that [he] may arise, bring together his estate, and arm himself before they enter.” [Cf. Gospel   of Thomas 21:5–9; Matthew   24:43 (Q); Luke 12:39 (Q)]


Roberto Pla

Tenta descrever o logion um dado frontal, ainda que prévio, desse magno acontecimento   que os textos neotestamentários denominam, a vinda do filho do homem. Segundo a vertente oculta  , tal “vinda” (parousia  ) é a elevação até a consciência da presença do Cristo interior, até então oculto, apenas semente  , mas agora feito manifesto  , uma vez ultrapassado o limite designado à cruz, mercê à adoração ou contemplação persistente.

Que o Filho   do homem venha à consciência sempre “de noite” é o natural  , porque não há luz, senão obscuridade, noite da alma  , antes de receber   o Dia do Filho. Por isso foi dito que “o Dia do Senhor há de vir como um ladrão”.

  • porque vós mesmos sabeis perfeitamente que o dia do Senhor virá como vem o ladrão de noite; (1Ts 5,2)

O que traz a bem-aventurança, segundo o logion, não é que os ladrões não entrem, dado que tudo consiste em saber que o ladrão há de vir, que virá — pois essa é a fé — e manter-se em vigília para que quando venha, não suba por outro lado, como um ladrão ou assaltante, mas que entre pela porta  , bem aberta, como corresponde ao Cristo verdadeiro, ao bom pastor   (Pastor e Ovelhas).

Todas os relatos evangélicos do ladrão que chega de noite, ou das almas virginais e prudentes que com suas lâmpadas na mão, bem providas de azeite suas lamparinas, saíram ao encontro do noivo  , servem para “indicar” em parábola [Parábola das dez virgens] algumas linhas mestres do acontecimento incomparável, único e final, da reunião da consciência com o Ser   real, com a essência pura do si mesmo  , imperecedora, absoluta, e inseparável “do que o uno   é”.

É seguro que Jesus entendeu que em seu tempo de Cristo manifesto era chegada a hora de publicar o que estava oculto desde a criação do mundo. Mas ainda que esse era, sem dúvida, o propósito mais querido por quem fez de sua vida permanente ensinada, abriu a boca para publicar em parábolas esses segredos ocultos que queria revelar. “Publicou em parábolas”, segundo o afirma o primeiro evangelista ao trazer o texto do salmo  .

Mas talvez agora, quase dois   milênios depois daquela jubilosa revelação que consistiu em levar o oculto até a parábola, cabe a tentativa pobre  , modesta — e muitos a acharão — de abrir ao manifesto algumas daquelas parábolas. Nisso estamos: “Para os que escutam entendam, e os que olhem, vejam. Para que com seu coração   entendam e se convertam e o evangelho os cure para sempre”.

A parábola é uma maneira mítica de contar o que estava oculto, mas o mito   e a realidade estão tão entranhados que não é possível saber quando acaba um e começa outro. Não é fácil assegurar que a realidade que agora se conta não leva consigo um resíduo inacabado de ocultação mítica. Por isso, o intento de abrir a parábola ao manifesto nunca será um ato de perfeição, porque jamais deixará de ter parábola antiga mitificada na insegura realidade nova.

Leloup

  • "Se manter desperto  ", ser forte  , bem centrado, não dispersar suas forças, ter os rins sólidos... tais são as condições para não perder sua serenidade na hora da prova, quando vem o ladrão de nossas energias, o inimigo   do Vivente.
  • Uma outra condição: conhecer a hora que ele vem, quer dizer de novo se conhecer a si mesmo, conhecer seus momentos de fraqueza   ou de depressão. Conhecer a hora de suas dúvidas e dos desejos de suas noites...

Gillabert

  • O mental   é um usurpador. Quer substituir   ao Si e deixar crer que se ele não tivesse o timão do barco, este estaria perdido.
  • Conheço o verdadeiro piloto e sei que o barco é teleguiado seguindo uma programação estabelecida desde sempre; vejo-o operando na manifestação e até neste pequeno jogo   que a pessoa   quer fazer seu.
  • Esta atenção sem objeto, esta presença no instante   que desarma os ladrões.
    • Se se sentem marcados, supervisionados em suas idas e vindas pelo observador imparcial e imperturbável, então cessam de insistir e se recolhem desmascarados.


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