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de Castro – ser e meio

domingo 20 de março de 2022

      

Segundo a tradição metafísica de Platão e Aristóteles, a natureza individual de todo ser, sua individualidade em um determinado estado   de manifestação, procede da relação de dois   elementos   de ordem   diferente: o ser   em si mesmo  , lado interior e ativo, e o conjunto   das influências do “meio” no qual o ser se manifesta, lado exterior e passivo (René Guénon — A GRANDE TRÍADE).

A constituição de uma individualidade é, portanto, ordenada pela ação do ser (ativo) sobre o “meio” (passivo), ou sob uma perspectiva geométrica, pelo cruzamento da vertical, que religa entre si diferentes estados de manifestação de um mesmo ser, com um determinado plano horizontal, entendido como domínio de um certo estado de manifestação. Ou seja, pela interseção da vertical considerada, com o plano horizontal, ou da virtude do ser com o seu “meio”, se define a manifestação do ser neste estado determinado, sua combinação de potência e ato, no sentido aristotélico.

Por conseguinte, o ser, por sua própria natureza, prescreve as condições de sua manifestação, sendo estas uma especificação, ou especialização das condições gerais do estado visado; sua manifestação deve ser um desenvolvimento das possibilidades contidas naquele estado, naquele “meio”.

O ser, desta maneira, se manifesta revestindo-se de elementos apropriados do “meio”; esta cristalização de elementos será determinada pela ação do ser sobre o “meio”, de sua natureza interna (supra-individual, no sentido vertical). A cristalização final não exprime todas as influências do “meio” na constituição do indivíduo  , pois estas se estendem indefinidamente em todos os sentidos. O “meio” deve ser entendido como um conjunto cujas partes estão ligadas entre si, sem solução de continuidade  , pois o “vazio  ” é inconcebível (abominável, segundo Aristóteles). O “meio”, por sua vez, reúne relações (ações e reações) entre todos os seres individuais, manifestados neste domínio, simultaneamente e sucessivamente.

Resumindo, o ser sofre do “meio” apenas limitações inerentes ao caráter condicionado de todo estado de manifestação. A afinidade   entre elementos apropriados do “meio” e a natureza do ser, ou dito de outra maneira, a conformidade do “meio” com as possibilidades que o ser porta   em si, é um dos axiomas desta visão de mundo e de homem  , que parece se alinhar com as constatações recentes dos biólogos   Maturana   & Varela   (1992).