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Schmemann Preparação para a Quaresma 1

domingo 20 de março de 2022

    

PREPARAÇÃO PARA A QUARESMA

1 - O DESEJO (Domingo de Zaqueu)

Bem antes do começo da Quaresma propriamente dito, a Igreja   anuncia sua chegada e nos convida a entrar no período preparatório da pré-Quaresma. É característico da tradição   litúrgica Ortodoxa que cada grande Festa ou período litúrgico seja anunciada e preparada com antecedência. Por que? Porque a Igreja tem uma pro funda percepção psicológica da natureza humana. Conhecendo nossa falta de concentração e a assustadora "mundanidade" de nossa vida, ela sabe o quanto somos incapazes de mudar   rapidamente, de passar bruscamente de um estado   espiritual ou mental   a outro. E é assim que, muito tempo   antes do começo do esforço próprio   da Quaresma, a Igreja chama nossa prosoche   - atenção   quanto a seriedade   deste período e nos convida a meditar sobre seu sentido. Antes da praktike   - prática da Quaresma, seu significado nos é dado.

Esta preparação compreende cinco   domingos consecutivos precedendo a Quaresma, sendo cada um deles, com seu Evangelho próprio, consagrado a um aspecto fundamental do arrependimento.

O primeiro anúncio da Quaresma acontece no domingo em que é lido o Evangelho de Zaqueu (Luc. 19, 1-10). É o relato de um homem   que era baixo demais para ver Jesus  , mas que desejava tanto vê-lo que subiu em uma árvore. Jesus atendeu a seu desejo e foi a sua casa  . Assim, o tema deste primeiro anúncio é o desejo. O homem é desejo, e esta verdade   psicológica fundamental da natureza humana é atestada pelo Evangelho: "Onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso kardia   - coração". Um desejo intenso vence os limites naturais do homem; quando ele deseja algo apaixonadamente, consegue realizar ações de que é normalmente incapaz. Apesar de "baixo" de altura, ele se ultrapassa e transcende-se a si mesmo  . A única questão então á saber se são os verdadeiros bens que nós desejamos, se nosso poder de desejar está orientado para o verdadeiro objetivo; ou se, para usar a expressão   do existencialista ateu Jean Paul Sartre  , o homem é uma "pathos   - paixão inútil".

Zaqueu desejava "a coisa justa", queria ver o se aproximar de Cristo. Ele é o primeiro símbolo do arrependimento, pois o arrependimento começa com a redescoberta da natureza profunda de todo desejo: o desejo do Deus   e de sua Justiça, o desejo da verdadeira vida. Zaqueu é "baixo" — mesquinho, pecador e limitado — e, entretanto, seu desejo passa por cima de tudo isso. Ele "força" a prosoche - atenção de Cristo, ele leva Cristo a sua casa.

Este é então o primeiro anúncio, o primeiro convite: é preciso desejar o que há de mais profundo e mais verdadeiro em nos mesmos, reconhecer   a sede e a fome do Absoluto   que está em nós, quer saibamos ou não, e que, quando nos desviamos e levamos nossos desejos para longe, faz de nós realmente uma "pathos - paixão inútil". E se nosso desejo é profundo e forte   o bastante, Cristo responderá a ele.