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Suzuki (DZNM:43-47) – não-discriminação

domingo 18 de setembro de 2022

    

Está, portanto, estabelecido aqui, do modo mais claro e inequívoco, que Dhyana   nada tem a ver com sentar-se de pernas cruzadas em meditação   — como pensam as pessoas mal-informadas e como sustentaram Shen  -hsiu e sua escola desde os tempos de Hui-neng. Dhyana não é quietismo nem tranquilização; é, antes, movimento  , ação, fazer coisas, ver, ouvir  , pensar  , lembrar; Dhyana é atingido, por assim dizer, quando não se pratica Dhyana; Dhyana é Prajna   e Prajna é Dhyana: ambos são uma coisa só. Este é um dos tópicos constantemente sublinhados por todos os mestres zen seguidores de Hui-neng.

Ta-chu Hui-hai continua: “Deixe-me dar-lhe um exemplo, para que suas dúvidas sejam esclarecidas e você possa sentir-se animado. É como um espelho   brilhante a refletir imagens. Quando o espelho reflete, o brilho se altera? De modo algum. E quando nada reflete, o brilho se altera? Não. Por quê? Porque o Uso do espelho brilhante desconhece preferências e, por isso, ao refletir nunca perde esse brilho. Havendo ou não imagens refletidas, seu brilho não se altera. Por quê? Porque aquilo que está livre de preferências não se altera em quaisquer circunstâncias  .

É como o sol   que ilumina o mundo. Sofre a luz   alguma mudança  ? Não. O que acontece quando não ilumina o mundo? Nada. Por quê? Porque a luz está livre de preferências e, iluminando ou não os objetos, permanece sempre inalterada, seja qual for a mudança das condições.

Digamos, agora, que a luz é Prajna e que a imutabilidade é Dhyana. O Bodhisattva se vale de Dhyana e de Prajna a um só tempo e, assim, atinge a iluminação. Por isso se diz que “usar Dhyana e Prajna ao mesmo tempo” significa emancipação. Permita-me acrescentar que estar livre de preferências significa estar livre de paixões, mas não significa ausência   de aspirações nobres (livres da concepção dualista da existência).”

Na filosofia zen, como de fato em toda a filosofia budista, não se fazem distinções entre termos lógicos e psicológicos, aqueles transformam-se imediatamente nestes. Tais distinções não podem existir na vida, pois na vida a lógica   é psicologia e a psicologia é lógica. Eis por que a psicologia de Ta-chu Hui-hai torna-se lógica em Shen-hui   e ambos se referem à mesma experiência. Lemos nos Aforismos de Shen-hui, § 32: “Sobre um suporte alto é colocado um espelho brilhante; sua iluminação atinge dez   mil coisas e todas elas se refletem nele. Os mestres costumam considerar esse fenômeno como algo maravilhoso; mas, na minha escola, não se deve considerar isso maravilhoso. Por quê? No que se refere ao espelho brilhante, sua luz atinge as dez mil coisas, mas estas não se refletem nele; e é isso o que eu diria ser maravilhoso. Por quê? O Tathagata   discrimina todas as coisas por intermédio do Prajna não-discriminativo (chih); se ele não tem mente   discriminativa, como poderia discriminar todas as coisas?”

O termo chinês usado para “discriminação  ” é fen-pieh, tradução da palavra sânscrita vikalpa, um dos termos importantes do Budismo  , usado em vários Sutras   e Sastras. Em caracteres chineses, o significado original é “cortar e dividir com faca” — o que corresponde exatamente à etimologia do viklp sânscrito. Por “discriminação”, portanto, entende-se conhecimento analítico: a compreensão relativa e discursiva de que nos valemos em nossas relações cotidianas com o mundo e também em nosso pensamento altamente especulativo. Pois a essência do pensamento é analisar, isto é, discriminar. Quanto mais afiada a faca da dissecação, mais sutil   será a especulação   resultante. De acordo, porém, com o pensamento budista, ou melhor, de acordo com a experiência budista, esse poder de discriminação baseia-se no Prajna não-discriminativo (chih ou chih-hui). Isso representa o que há de mais fundamental na compreensão humana e é o que nos permite ter a visão   interior da nossa natureza-própria, também chamada natureza de Buda, que todos possuímos. Sem dúvida, natureza-própria é o próprio Prajna, como repetidas vezes afirmamos acima. E este Prajna não-discriminativo é aquilo que está “livre de preferências”, expressão   empregada por Ta-chu Hui-hai para caracterizar a mente-espelho.

Portanto: Prajna não-discriminativo, “estar livre de preferências”, “desde o princípio nada é” — são expressões que nos levam à mesma fonte, à nascente da experiência zen.

A pergunta, agora, é a seguinte: como é possível à mente humana passar da discriminação para a indiscriminação, das preferências para as não-preferências, do ser para o não-ser, da relatividade para o Vazio  , das dez mil coisas para a natureza-espelho sem conteúdo ou natureza-própria, ou ainda, falando em termos budistas, de mayoi (mi, em chinês) para o satori   (wu)? [1] Como é possível esse movimento? Esse é o maior mistério não só do Budismo, mas de todas as religiões e filosofias. Enquanto o mundo, tal como é concebido pela mente humana, for um reinado de opostos  , não há maneira de escapar   disso e entrar no mundo do Vazio, onde, supõe-se, todos os opostos estão fundidos. Apagar a multiplicidade das dez mil coisas, a fim de ver dentro da própria natureza-espelho parece ser absolutamente impossível. Os budistas, no entanto, tentam consegui-lo.

A pergunta, filosoficamente enunciada, está malfeita. Não se trata de apagar a multiplicidade, nem de passar da discriminação para a não-discriminação, da relatividade para o Vazio etc. Para os que adotam o processo de apagar, quando se completa a limpeza do espelho, ele mostra o brilho original; o processo, portanto, é uma linha de movimento contínuo  . Mas o fato é que o próprio ato de apagar é um efeito do brilho original. “Original” não se refere a tempo, como se um dia, num passado   remoto, o espelho fosse puro e imaculado e, não mais estando assim, precisasse agora ser polido para recuperar o brilho original. O brilho sempre esteve ali, mesmo quando se pensa que ele está encoberto   pela poeira e não reflete os objetos como devia refletir. O brilho não é algo a ser restaurado, não é algo que aparece no final de um processo. Ele nunca se separou do espelho. É isso que se quer dizer quando se declara no Tan-ching, e em outros textos budistas, que a natureza de Buda é a mesma em todos os seres, sejam eles ignorantes ou sábios.

Pelo fato de a obtenção do Tao   não envolver um movimento contínuo do erro   à verdade, da ignorância à iluminação, de mayoi a satori, os mestres zen afirmam que não existe iluminação alguma quando se fala em “atingir”. Se disser que atingiu alguma coisa, essa é a prova mais cérta de que você errou o caminho  . Por isso, não-ter é ter, o silêncio   é trovão, a ignorância é iluminação. Os santos discípulos do caminho da Pureza   vão para o inferno, enquanto os Bhikshus, violadores de preceitos, atingem o Nirvana; limpar é acumular sujeira. Todos essas afirmações paradoxais — e a literatura zen está cheia delas — não passam de negações do movimento contínuo que vai da discriminação à indiscriminação, da preferência à não-preferência etc.

A teoria do movimento contínuo falha em responder por estes fatos: primeiro, que o processo de movimento se interrompe no espelho originalmente brilhante e não tenta continuar indefinidamente; em segundo lugar, que a pura natureza do espelho fica sujeita à corrupção, isto é, que de um objeto brota outro que lhe é inteiramente contrário; ou, por outras palavras: a negação absoluta é necessária. Mas, terá cabimento quando se trata de um processo contínuo? Eis a razão pela qual Hui-neng se opõe tenazmente à opinião   de seus adversários. Ele não endossa a doutrina   da continuidade que pertence à Escola Gradual de Shen-hsiu. Todos os que sustentam a opinião do movimento contínuo pertencem a essa Escola. Hui-neng, ao contrário, é o defensor da Escola Abrupta. De acordo com esta Escola, a transição de mayoi a satori é abrupta e não gradual; descontínua, e não contínua.

Dizer que o processo de iluminação é abrupto significa que há um salto de caráter lógico e psicológico na experiência budista. O salto lógico é uma interrupção repentina do processo comum de raciocínio: aquilo que se considerava irracional passa a ser percebido como perfeitamente natural; no salto psicológico, os limites da consciência   são ultrapassados e mergulha-se no Inconsciente, que afinal não é Inconsciente. Esse processo é descontínuo, súbito  , e está além de qualquer estimativa. Isto é “ver dentro da natureza-própria”. Por isso, diz Hui-neng:

”Amigos, quando eu me achava junto de Jen, o Mestre, alcancei um satori (wu) simplesmente por ouvi-lo falar, quando, subitamente, vi dentro da Natureza Original da Quididade. Esta é a razão pela qual desejo ver este ensinamento propagado, para que todos aqueles que buscam a verdade também possam ter uma compreensão súbita de Bodhi  , possam ver cada um por si mesmo   o que é a sua própria mente (hsin), o que é a sua natureza original... Todos os Budas do passado, do presente e do futuro e todos os Sutras pertencentes às doze divisões estão na natureza-própria de cada indivíduo   — onde sempre estiveram... ‘Há, no interior de nós “Aquilo que sabe’, e por essa razão tem-se o satori. Se algum pensamento errôneo surgir   ali, as falsidades e as perversões prevalecem; e mais ninguém, por sábio   que seja, poderá instruir tais pessoas, que estão de fato fora do alcance da ajuda  . Mas se ali acontece uma iluminação operada pelo verdadeiro Prajna, todas as falsidades desaparecem de imediato. Se uma pessoa compreender sua natureza-própria, o seu satori bastará para elevá-la ao estado de Buda. Amigos, quando se dá a iluminação de Prajna, o interior se faz tão perfeitamente translúcido quanto o exterior e o homem   conhece por si mesmo o que é sua mente original — e isso nada mais é do que a emancipação. A emancipação obtida é Prajna-Samadhi   e quando se compreende este Prajna-Samadhi realiza-se o estado de mu-nen (wu-nien), estado de não-pensamento.”


Ver online : D. T. Suzuki


[1Mayoi quer dizer “estar numa encruzilhada”, sem saber que caminho tomar; isto é: “desnorteado”, “fora do caminho da verdade”. Contrasta com satori (wu), que é o entendimento correto, a realização da verdade.