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Corbin (ICSIA): A dupla dimensão dos seres

segunda-feira 1º de agosto de 2022

      

tradução

«Se declaras que tal forma é Deus  , é que tu a homologas porque ela é uma forma dentre as formas onde ele se manifesta (mazhar); mas se dizes que ela é outra coisa, outro que Deus, é que tu a interpretas, da mesma maneira que te incumbes interpretar as formas vistas em sonho  ». Mas homologação e interpretação não valem senão simultaneamente, pois então dizer que a forma teofânica é outra que Deus, isso não é absolutamente depreciá-la como «ilusória», é ao contrário valorizá-la e fundá-la como símbolo referente ao simbolizado (marmuz ilayhi), o qual é o Ser   Divino. Com efeito, o ser revelado (zahir  ) é Imaginação   teofânica, e simultaneamente sua verdadeira realidade oculta (batin) é o Ser Divino. É porque o ser revelado é Imaginação, que uma hermenêutica das formas manifestadas nele é necessária, quer dizer um tawil   que «reconduza» (segundo a etimologia da palavra tawil) estas formas a sua verdadeira realidade. Não somente o mundo do sonho mas o mundo que chamamos comumente o mundo da vigília, todos os dois   têm a mesma e igual necessidade   de uma hermenêutica. Mas notemos bem isto: se o mundo é criação recorrente (khalq jadid) e recorrência de epifanias, se como tal é Imaginação teofânica, se desde então tem necessidade de uma hermenêutica ou tawil, é portanto certamente a criação recorrente, imperceptível aos sentidos, que em último recurso faz que o mundo seja Imaginação e tenha necessidade de uma hermenêutica assim como os sonhos. A sentença atribuída ao Profeta  : «Os humanos dormem, em sua morte eles se despertam», dá a compreender que tudo o que os humanos veem em sua vida terrestre é da mesma ordem   que as visões contempladas em sonho. A superioridade   do sonho sobre os dados positivos da vigília está mesmo aí: permitir, ou melhor requerer uma interpretação que supere os dados, porque estes dados significam outra coisa que o que se mostra. Eles manifestam (e todo o sentido das funções teofânicas está aí). Não se interpreta o que nada tem a vos ensinar  , nada significa além do que é. É porque o mundo é Imaginação teofânica, que é constituído de «aparições» demandando ser interpretadas e superadas. Mas então também é só pela Imaginação ativa que a consciência, despertada para a verdadeira natureza do mundo como «aparição», pode superar os dados, e por aí se tornar apta a novas teofanias, quer dizer a uma ascensão contínua. A operação imaginativa inicial será de tipificar (tamthil) as realidades imateriais e espirituais nas formas exteriores ou sensíveis, estas se tornando então a «cifra» disto que manifestam. A Imaginação permanece em seguida o motor deste Tawil que é ascensão contínua da alma  . [ICSIA  ]

Original

« Si tu déclares que telle forme est Dieu, c’est que tu l’homologues parce qu’elle est une forme d’entre les formes où il se manifeste (mazhar) ; mais si tu dis qu’elle est autre chose, autre que Dieu, c’est que tu l’interprètes, de la même manière qu’il t’incombe d’interpréter les formes vues en rêve. » Mais homologation et interprétation ne valent que simultanément, car alors dire que la forme théophanique est autre que Dieu, cela n’est nullement la déprécier comme « illusoire », c’est au contraire la valoriser et la fonder   comme symbole référant au symbolisé (marmûz ilayhi), lequel est l’Etre Divin. En effet, l’être révélé (zâhir) est Imagination théophanique, et simultanément sa vraie réalité cachée (bâtin) est l’Etre Divin. C’est parce que l’être révélé est Imagination, qu’une herméneutique des formes manifestées en lui est nécessaire, c’est-à-dire un ta’wîl qui « reconduise » (selon l’étymologie du mot ta’wîl) ces formes à leur vraie réalité. Non seulement le monde du rêve mais le monde que nous appelons communément le monde de la veille, tous deux ont même et égal besoin d’une herméneutique. Mais notons bien ceci : si le monde est création récurrente (khalq jadîd) et récurrence d’épiphanies, si comme tel il est Imagination théophanique, si dès lors il a besoin d’une herméneutique ou ta’wîl, c’est donc bien la création récurrente, imperceptible aux sens, qui en dernier ressort fait que le monde soit Imagination et ait besoin d’une herméneutique tout comme les rêves. La sentence attribuée au Prophète : « Les humains dorment, à leur mort ils se réveillent », donne à comprendre que tout ce que les humains voient dans leur vie terrestre est du même ordre que les visions contemplées en songe. La supériorité du rêve sur les données positives de la veille est même là : permettre, ou plutôt requérir une interprétation qui dépasse les données, parce que ces données signifient autre chose que ce qui se montre. Elles manifestent (et tout le sens des fonctions théophaniques est là). On n’interprète pas ce qui n’a rien à vous apprendre, ne signifie rien de plus que ce qu’il est. C’est parce que le monde est Imagination théophanique, qu’il est constitué d’« apparitions » demandant à être interprétées et dépassées. Mais alors aussi c’est par la seule Imagination active que la conscience, éveillée à la vraie nature du monde comme « apparition », peut en dépasser les données, et par là se rendre apte à de nouvelles théophanies, c’est-à-dire à une ascension continue. L’opération imaginative initiale sera de typifier (tamthîl) les réalités immatérielles et spirituelles dans les formes extérieures ou sensibles, celles-ci devenant alors le « chiffre » de ce qu’elles manifestent. L’Imagination reste ensuite la motrice de ce ta’wîl qui est ascension continue de l’âme.


Ver online : Excertos de "A Imaginação criadora no sufismo de Ibn Arabi"