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Daumal (CFAP) – A Vida dos Basílios - os fragmentados

terça-feira 13 de setembro de 2022

    

Há nas lendas tibetanas um monstre singularmente assustador. A boca se enche de um bloco de sal quando se lê isso. Esta criatura, larva ou demônio, tem no conjunto   a figura humana. De longe se creria um viajante perdido ou um sonâmbulo. Mas isto se aproxima, e vê-se que a cabeça  , os membros e o tronco são seccionados. Os pedaços permanecem mais ou menos no lugar, e flutuam no ar mal reunidos por filamentos muito finos. O pior  , o imperdoável, é que este horror quer viver   e que sofre; estes pedaços humanos vêm em sua direção  , te pedem de beber e de comer. Mas só se tem um medo e um desgosto sem limite. Sente-se como o perigo de um contágio. Sente-se no fundo de si que se poderia tornar uma destas larvas. E, por medo, odeia-se ela.

Contos da carochinha!!!! Nós, espíritos cultos, destacados das trevas da superstição, sabemos muito bem que o homem  , esta maravilha da criação, é um todo harmonioso e homogêneo; que somos pequenas repúblicas ambulantes e admiravelmente organizadas; que cada um de nós é um indivíduo   em seu gênero; enfim que podemos dormir   tranquilos e afastar para longe de nós estas fantasias mórbidas de povos ignorantes.

Todavia não! Destes monstros em pedaços, olhai, a rua esta cheia deles. Olhai-os, e sobretudo olhemo-nos. Todos, mais ou menos, nos assemelhamos a estes fragmentados. Neste aqui, o coração   tem suas razões que a razão   desconhece, a cabeça tem fome quando o ventre está repleto, o intelecto se usa em círculos viciosos enquanto que o corpo decapitado vagueia as necessidades diárias. E cada um, a sua maneira da qual é frequentemente confiante, esta assim recortado em pedaços apenas religados por finos filamentos de uma função social ou de um obscuro   desejo animal   de viver.

Povo feliz, Tibetano que seja, se para ele estes monstros forem criaturas de exceção ou de fábula  ! Para nós, é bem ao contrário, um homem coerente, de um bloco que atordoaria, detonaria e destoaria. Olhai bem, e não vereis mais que multidões de fantasmas fragmentados, e que sofrem, e que são nossos irmãos. (texto original)


Ver online : René Daumal