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Guardini Sermão da Montanha

domingo 20 de março de 2022

      

Sermão da Montanha  
As reflexões da primeira parte (da vida de Jesus  ) foram consagradas aos princípios da vida do Senhor, e ao período dela a que se deu o nome feliz de primavera do seu apostolado. Nesse tempo os homens eram impressionados pelo poder da sua personalidade e a verdade da sua mensagem. Por todo o lado os corações se abriam, os milagres irrompiam, e parecia que o Reino de Deus  , tão próximo, havia de aparecer   realmente em toda a sua patente plenitude  .

A descrição deste tempo culmina com o Sermão da Montanha; sucessão de ensinamentos e exortações, provavelmente administrados em ocasiões diferentes mas dentro da mesma situação global, e que o Evangelista associou ao mais importante dentre eles, pronunciado «na montanha». Ao fim da primeira parte ocupamo-nos já das bem-aventuranças, essas palavras inquietantes e poderosas que constituem o seu princípio. Com o Sermão da Montanha começará também a segunda parte das nossas reflexões.

Tem-se dito que ele anuncia a ética de Jesus; que Jesus formula nele as novas relações do homem   consigo mesmo, com os outros, com o mundo e com Deus  , através das quais a ética cristã se diferencia da do Antigo Testamento   e da da humanidade. Esta opinião  , não é porém exata, se se entende por ética, no sentido moderno da palavra, a ciência do dever   e da moralidade. Não é somente uma moral o que aqui se manifesta, mas toda uma maneira de existir — a qual evidentemente, exprime ao mesmo tempo um «ethos».

A consciência desta maneira de existir sobressai claramente nas bem-aventuranças. Palavras surpreendentes e inquietantes qualificam de «feliz» aquilo que nós naturalmente chamamos «desgraçado», e são lançadas ameaças sobre o que temos em grande apreço — ver em Lc  . 6, 24-26.

Procurando compreender tudo isso, dissemos que novos valores penetram no mundo a partir do «alto» — tão diferentes e tão grandes que para os exprimir é necessário inverter a escala natural   dos valores. Qual será então a relação desta nova existência, e de tudo o que ela abrange, com as normas tradicionais do Antigo Testamento? Jesus responde: «Não julgueis que vim destruir a Lei ou os Profetas; não vim destruí-los mas sim a dar-lhes cumprimento» (Mt  ., 5, 17). O que Ele traz é pois novo, não porque destrua o passado  , mas porque o leva às suas últimas consequências.

Segue-se então uma série de parágrafos, nos quais esta realização   é exposta: Mt. 5, 21-26; 27-30; 5, 33-37; 5, 38-42; 5, 45-48, e ainda Lc. 6, 34-35.

Estes textos são construídos do mesmo modo. Primeiramente: «Ouvistes que foi dito aos antigos», e depois: «Pois Eu digo-vos», após o que se segue a resolução da contradição. Quatro dentre eles ocupam-se das relações com o próximo, três dos quais da relação entre justiça e amor, e a restante do comportamento   do ser humano em relação ao sexo oposto. Um dos textos é consagrado às relações com Deus.