Página inicial > Arte e Simbolismo > Mitos Misterios

Mitos Misterios

domingo 20 de março de 2022

    

Filosofia
Eudoro de Sousa  : SEMPRE O MESMO ACERCA DO MESMO

Mito  , tal como decidimos entendê-lo, isto é, como relato acerca do que vai dos princípios primeiros até os fins últimos, é a única maneira de emergir em expressão   verbal, o «que» e o «como» de todo o originário. E efetivamente assim é, e o que supomos que seja o propriamente mítico na mitologia de Helenos   e helenizados. Mitos que vivem até o fim do paganismo grego, latino e próximo-oriental não se encontram na religião da Pólis  , a não ser como partes de outras que ela adaptou para reavivar uma religiosidade em vias de se perder nos meandros da especulação   filosófica e de submergir-se numa torrente de águas agitadas e confusas, que se perdiam na areia solta de seu leito movediço, de uma religião que se repartiu, por um lado, em leitura e meditação   livresca («Hermetismo», por exemplo, sem desprimor para muitos pensamentos valiosos, talvez de outras épocas, e que ficaram à margem da estrada real   da teologia clássica, e mesmo da mais arcaica) e, por outro lado, no automatismo rotineiro de rituais mágicos, astrológicos e teúrgicos. Contra uns e outros, bons motivos assistiam aos que se negavam a perder a razão   ou a dela se perderem; mas nenhuma «razão» foi bastante poderosa, a ponto de evitar a maré alta dos cultos de mistério, pois eram estes os únicos que reuniam, que refundiam mito e rito, no drama  ; corpo e alma  , nos personagens que o representavam; só os que obstavam àquela divisão  , àquela repartição da religiosidade, em teologia-livresca e ritual-supersticioso. O impulso mítico, talvez o mesmo que animava e impelia a especulação neoplatônica até as cumeadas de um pensamento que sobreviveria à vitória política do cristianismo, manteve-se nos cultos misteriosos de Deméter-Perséfone  , do Dioniso   órfico ou órfeo-pitagórico e de Serápis, de Cibele e Atis, de Adônis, de Mitra Tauróctono, porque todos esses cultos deixavam viver  , lado a lado, a transcendência   teística e a imanência cosmobiológica. E o cristianismo triunfou, tentando atingir o pensamento da respectiva complementaridade: opunham-se o Deus   imortal, transcendente e amítico do judaísmo e da especulação teológica dos Gregos, e um Deus que, assassinado, se transformava no Pão demétrico e mitraístico e no Vinho dionisíaco (tão semelhante ao Soma védico) em carne   e sangue   de uma vida que só arriscava o perder-se como tal, pela excessiva insistência na sobrenaturalidade exigida pela ideia de uma transcendência que demasiado pesava em um dos pratos da balança, desequilibrando-o à custa da minorada imanência, colocada no outro. Quando certos apologetas cristãos apontavam para os satânicos prenúncios da sua religião, quando faziam deles como que a obra do diabo  , previam, negativamente, a necessidade   de uma conciliação que, por Cristo   e em Cristo já se realizara, no que não podia senão chamar-se de Mistério, isto é, um cogitatum solicitante e desafiante de um cogito que não chega a tocá-lo, porque, situado tão além do horizonte   do pensável - esse que só o é como imanência ou como transcendência ou transcendência imanente. A extrema contradição, que pode ser vivida na praxis  , não se expressa nem pode expressar  -se na theoria. O mito, por inerente descaso das contradições, é a única saída satisfatória, mesmo para o cristianismo, que julga destruir-se a si mesmo  , se, inserida a sua origem   na história, não puder constituir-se como supremo fator histórico. E, claro, aqui também por de mais influi a prematura forma de um mal disfarçado positivismo  , que arremessa contra nós   a concepção de que a história, como a ciência, pode e deve substituir   o mito, com indiscutível vantagem   para o que se dá por único modo de pensar cujo objeto passa pelo único eminentemente real e digno de entes que atingiram a idade da razão.