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Benoist Signos Simbolos Mitos

domingo 20 de março de 2022

Do original francês publicado pela prestigiosa coleção Que sais-je? e traduzido para o português por Anna Maria Viegas, edição Interlivros (Belo Horizonte, 1976).

Excertos

  • Benoist   Ambivalência dos Símbolos - AMBIVALÊNCIA DOS SÍMBOLOS
  • Benoist   Pensamento Artesanal - PENSAMENTO ARTESANAL
  • Benoist   Linguagem - LINGUAGEM
  • Benoist   Ego - EGO
    INTRODUÇÃO A noção de símbolo, de acordo com a ideia que dela normalmente fazemos, acha-se relegada a um solene empíreo onde raramente viriam visitá-la alguns curiosos de arte medieval ou de poesia malarmiana. Há nisso um estranho menosprezo. Pois todo homem, à maneira de M. Jourdain que falava em prosa, utiliza cotidianamente o simbolismo sem o saber, já que toda palavra é um símbolo. Mas, como dizia Aristóteles, a palavra cão não morde (NA: Ainda que no fundo a palavra cão se identifique simbolicamente à mordedura. Se a transferência não se efetua, o que parece supor Aristóteles, é porque não há símbolo. Cave canem!). Não se trata, portanto, de um domínio privado ou fortuito, mas de uma atividade diária, em que o papel do simbolismo consiste em exprimir ideias difíceis, de tal maneira que se tornem accessíveis a todo mundo.

Etimologicamente, a palavra símbolo vem do grego sumballein, que significa atar junto. Um sumbalon era na origem um sinal de reconhecimento, um objeto cortado em duas metades, cujo confronto permitia aos portadores de cada parte reconhecerem-se como irmãos e acolherem-se como tais, sem jamais se terem visto antes.

Ora, na ordem das ideias, um símbolo é igualmente um elemento de ligação rico em mediação e analogia. Une os contraditórios e reduz as oposições. Nada se pode compreender nem comunicar sem a sua participação. Dele depende a lógica, pois apela para o conceito de equivalência, e a própria matemática com suas cifras só se expressa por símbolos. A vida principalmente é a fonte mais fecunda desses procedimentos e sua mais antiga utilizadora. Já o manifestava antes mesmo que o homem das cavernas houvesse emitido sua primeira palavra articulada. É por isso que um simbolismo vital e orgânico expressará sempre melhor que outro as verdades de ordem espiritual, como comprovam as parábolas evangélicas. É por isso ainda que a biologia de hoje, com suas novas ciências do ser vivo, que se multiplicam em disciplinas diversas, está em vias de substituir em seu antigo primitivismo, tanto uma matemática por demais desumana, quanto uma filosofia excessivamente literária e mais ligada a um ilusionismo verbal do que à realidade concreta.

Se existem muitos livros que abordam esse importante assunto, isto se dá, pelo que nos parece, de maneira particular e num campo limitado, mesmo quando se trata de obras de vulgarização. Nenhum deles explica as razões lógicas do simbolismo. Os dicionários fazem apenas um recenseamento de signos e os estudos especializados não se aventuram no domínio de sua gênese. Simples constatações, e não exegeses, é o que de fato podemos daí esperar.

Eis por que nos parece útil acompanhar as mutações dos signos, desde o seu aparecimento até a sua mais longínqua metamorfose, notadamente no domínio dos ritos e dos mitos, para bem mostrar seu relacionamento funcional. Os mitos são a linguagem imagística dos princípios. Freud   os chama de complexos, Jung   de arquétipos e Platão os chamava de ideias. Explicam a origem de uma instituição, de um costume, a lógica de uma aventura, a economia de um encontro. São, dizia Goethe  , as relações permanentes da vida.

Insistimos entretanto em precisar que, no desenvolvimento de nossa exposição, nós nos restringiremos sempre ao nível do mais elementar, mais primitivo, mais cotidiano, sem aventurar no íntimo das especulações da semântica estrutural ou da lógica matemática, que apesar disso utilizamos. Aqui nos mantivemos ao nível da experiência, pois acreditamos que o homem jamais poderá pensar mais alto que a sua mão. (NA: Um ensaio publicado em 1930, com o título “La cuisine des anges”, foi uma aproximação primeira desse trabalho. Havia obtido nessa época um prêmio da Revue Universelle. Mas sua apresentação lírica demais prejudicava o rigor da exposição.)