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Suzuki (DZNM:38-40) – «vigiar a pureza»

domingo 18 de setembro de 2022

    

Essa diferença   fundamental entre Hui-neng e Shen  -hsiu na concepção da natureza-própria — que é a mesma coisa que a natureza de Buda   —, foi a causa   das divergências registradas entre ambos quanto à prática do Dhyana  , isto é, do método do Tso-ch’an (zazen, em japonês). Leiam esta gatha [O T’an-ching (edição Kosjohi), § 6] de Shen-hsiu:

Nosso corpo é a árvore Bodhi  
e nossa mente   é um espelho   brilhante;
a cada hora nós os limpamos com cuidado  
e não deixamos que a poeira se assente.

Na meditação do tipo limpar a poeira (tso-ch’an, zazen), não é fácil ultrapassar a tranquilização da mente  ; fica-se, assim, sujeito   a estacionar no grau de contemplação tranquila que Hui-neng chama de “prática de vigiar   a pureza  ”. Na melhor das hipóteses, termina.no êxtase, na auto-absorção, numa suspensão temporária da consciência  . Mas nisso não há “ver”, não há autoconhecimento, não há uma compreensão ativa da natureza-própria, nem funcionamento   espontâneo   dela; não há chen-hsing   (”ver dentro da natureza”) de qualquer espécie. O tipo limpar a poeira é, portanto, a arte de amarrar-se com uma corda criada por si mesmo   — uma construção artificial que impede o caminho   para a emancipação. Não é de admirar que Hui-neng e seus seguidores atacassem a Escola da Pureza.

O tipo de meditação quietista de limpar a poeira e fitar a pureza foi provavelmente um aspecto do Zen ensinado por Hung-jen, mestre de Hui-neng, Shen-hsiu e muitos outros. Hui-neng, que compreendeu o verdadeiro espírito   do Zen — provavelmente porque não ficou condicionado ao aprendizado e, consequentemente, a uma atitude conceituai perante a vida -, percebeu da maneira mais certa o perigo do quietismo e alertou seus discípulos contra ele. Mas a maioria dos discípulos de Hung-jen estava mais ou menos inclinada a adotar o quietismo como o método ortodoxo na prática do Dhyana. Tao  -i, popularmente conhecido como Ma-tsu, antes de encontrar Huai-jang em Nan-yueh, também era quietista e queria observar   o puro Vazio   da natureza-própria. Quando jovem, estudara o Zen com discípulos de Hung-jen e, mesmo depois de chegar a Nan-yueh, continuou a sua velha prática de “sentar-se em meditação” (tso-ch’an). Daí o diálogo   entre ele e Huai-jang, um dos maiores discípulos de Hui-neng, que passamos a narrar:

Observando a maneira assídua com que Ma-tsu praticava o “sentar-se em meditação” todos os dias, Huai-jang disse-lhe: — Amigo, qual a tua intenção   ao praticar o tso-ch’anl — Desejo atingir o estado   de Buda — respondeu Ma-tsu. Então Huai-jang pegou um tijolo e começou a esfregá-lo. Ma-tsu perguntou: — O que fazes? — Quero transformar isso num espelho.
 
— Não há polimento capaz de transformar um tijolo num espelho, disse Ma-tsu. E imediatamente Huai respondeu: — Não há prática suficiente de tso-ch’an que o faça atingir o estado de Buda. — Que é preciso fazer, entlo? — perguntou Ma-tsu. — É como dirigir uma carroça — disse Huai-jang: — Quando ela para, o que deve fazer o carroceiro? Bater na carroça ou bater no boi  ? Ma-tsu ficou em silêncio  .
 
Em outra ocasião, Huai-jang disse: — Pretendes ser mestre de t’so-ch’an, ou alcançar o estado de Buda? Se desejas estudar o Zen, quero que saibas que o Zen não é sentar-se de pernas cruzadas em meditação, nem deitar-se. Se pretendes atingir o estado de Buda sentando-te de pernas cruzadas em meditação, é bom que saibas que o Buda não tem forma específica. O Dharma não tem morada   fixa. Se tentas atingir o estado .de Buda sentando-te de pernas cruzadas, é bom que saibas que isso é como assassinar o Buda. Enquanto te prenderes a essa postura, nunca alcançarás a Mente.
 
Assim instruído, Ma-tsu sentiu como se tivesse tomado uma deliciosa bebida. Fazendo reverências, perguntou: — Como devo preparar-me a fim de estar em harmonia   com o Samadhi   do sem-forma? O Mestre respondeu: — Disciplinar-se no estudo da Mente é como semear sementes no chão. Meu ensinamento sobre o Dharma é como a chuva que cai lá do alto. Quando as condições estiverem maduras, você verá o Tao. [1]
 
Ma-tsu perguntou de novo: — O Tao não tem forma; como pode ser visto?
 
O mestre respondeu: — O olho — dharma da Mente — é capaz de penetrar o Tao. Assim acontece com o Samadhi do sem-forma.
 
Ma-tsu: — Ele está sujeito ao completamento e à destruição?
 
Mestre: — Se lhe aplicarmos noções tais como completamento e destruição, acumulação e dispersão, nunca chegaremos a penetrá-lo.

Pode-se dizer que, de certo modo, o Zen chinês começou realmente com Ma-tsu e seu contemporâneo Shih-tou, ambos descendentes diretos de Hui-neng; mas antes que Ma-tsu estivesse firmemente estabelecido no Zen, ele recebeu a influência da meditação do tipo “limpar a poeira” e “contemplar a pureza”, aplicando-se com afinco à prática do tso-ch’an, sentando-se, de pernas cruzadas, em meditação. Desconhecia o tipo visão-de-si-mesmo, e ignorava a ideia de que a natureza-própria, que é Ser-em-si,era a visão-de-si-mesmo e também ignorava que não havia ser além do Ver que é Agir e que esses três termos — Ser, Ver e Agir — são sinônimos e permutáveis. A prática da meditação (dhyana) precisava, portanto, ser completada pelo olho do Prajna   ambos deviam ser considerados uma só coisa — e não dois   conceitos separados.


Ver online : D. T. Suzuki


[1Literalmente, “Caminho”, significando verdade, o Dharma, Realidade fundamental.