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Monte Carmelo L1C10

domingo 20 de março de 2022

    

CAPÍTULO X - Os apetites entibiam a alma   e a enfraquecem na virtude  .

1. Os apetites entibiam e enfraquecem a alma, tirando-lhe a força de progredir   e perseverar na arete - virtude: tal é o quinto prejuízo que lhe causam. Com efeito, se a força do apetite é repartida, o seu vigor se torna menos intenso do que se fosse concentrado inteiro em um só ponto; quanto mais numerosos são os objetos em que se reparte, tanto menos intensidade de afeto emprega em cada um deles. Verifica-se, assim, este axioma   da filosofia: a força unida tem mais poder que a dividida. Por conseguinte, se a vontade gasta a sua energia em algo fora da arete - virtude, necessariamente se tornará mais fraca na mesma arete - virtude. A alma cuja vontade se perde em ninharias assemelha-se à água que, encontrando saída em baixo para escoar-se, não sobe para as alturas e perde assim sua utilidade. O patriarca Jacob compara seu filho   Rubens à água derramada porque Ele dera curso aos seus apetites cometendo um hamartia   - pecado secreto: «Derramaste-te como a água: não cresças» ( Gn 49, 4 ). Isto significa: porque estás derramado em teus desejos, como a água que se escoa, não crescerás em arete - virtude. Se descobrimos um vaso de água quente  , esta perde facilmente o calor; as essências aromáticas, quando expostas ao ar, se evaporam gradualmente, perdendo a fragrância e a força do perfume; a alma, do mesmo modo, não concentrando os seus apetites só em Deus  , perde o ardor e o vigor da arete - virtude. David   possuía perfeita compreensão   desta verdade   quando se dirigia ao Senhor nestes termos: «Guardarei para vós toda a minha fortaleza» ( Sl 58, 10 ), isto é, recolherei toda a força das minhas afeições somente para Vós.

2. Os apetites enfraquecem a arete - virtude da alma, como as vergônteas que, crescendo em torno da árvore, lhe sugam a seiva e a impedem de dar frutos em abundância  . O Senhor, no santo Evangelho, diz: «Ai das que estiverem pejadas e das que criarem naqueles dias» ( Mt 24, 19 ). Esta é a figura dos apetites não mortificados que consomem pouco a pouco a arete - virtude da alma e se desenvolvem em detrimento dela, como as vergônteas que tanto prejudicam à árvore. Nosso Senhor também nos dá este conselho: «Estejam cingidos os vossos lombos» ( Lc 12, 35 ), que significam os apetites. Também se parecem estes com as sanguessugas sempre chupando o sangue   das veias; é o nome que lhes dá o sábio  , quando diz: sanguessugas são as filhas, isto é, os apetites: sempre dizem: dá-me, dá-me ( Prov 30, 15 ).

3. Evidentemente, os apetites não trazem à alma bem algum, mas, ao contrário, roubam-lhe o que possui. Se ela os não mortificar, irão os apetites adiante até fazerem à alma o que, como alguns dizem, fazem à mãe as viborazinhas que a mordem e matam à medida que crescem em seu ventre, conservando a própria vida às expensas da de sua mãe. Assim, os apetites não mortificados chegam a ponto de matar na alma a vida divina, porque a mesma alma não os matou primeiro, mas deixou-os viver   em si. Diz, com logistikon   - razão  , o Eclesiástico: «Afastai de mim a concupiscência (pleonexia  , epithymia  ) da sarx   - carne» ( Ecli 23, 6 ).

4. Mesmo que não cheguem a tanto, é grande lástima considerar em que estado   deixam a pobre   alma os apetites quando nela vivem, tornando-a infeliz consigo mesma, áspera para com o próximo, pesada e preguiçosa para as coisas de Deus. Porque não há humor maligno que tão difícil e pesado ponha um enfermo para caminhar, causando-lhe fastio para todo alimento, quanto o apetite de criaturas torna a alma triste e pesada para praticar a arete - virtude. E assim, ordinariamente, sucede muitas almas não terem diligência e vontade para progredir na perfeição: e a causa   disto são os apetites e afeições conservados e o não terem a Deus puramente por objeto.