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Suzuki (DZNM:32-34) – Dhyana segundo Hui-neng

sábado 17 de setembro de 2022

    

Outra narrativa, encontrada na Vida de Ts’ao-ch’i  , o Grande Mestre, tornará muito mais claro o conteúdo da citação acima. O imperador Chung-tsung, da dinastia Tang, ao ouvir   falar da realização   espiritual de Hui-neng, enviou-lhe um mensageiro com um chamado; mas Hui-neng recusou-se a ir à capital. O mensageiro Hsieh-chien pediu, então, que o Mestre o instruísse na doutrina  , dizendo-lhe: — Na capital, os mestres zen ensinam invariavelmente a prática da meditação   (t’so-ch’an-dhyana  ); de acordo com eles, não há, libertação nem realização espiritual possível sem essa prática.

”Hui-neng replicou: — A Verdade é compreendida pela mente   (hsin  ) e não pela prática de sentar-se (tso) em meditação. De acordo com o Vajracchedika, “se alguém disser que o Tathagata   senta-se ou deita-se é porque não entendeu o meu ensinamento. Pois o Tathagata não vem de lugar algum nem vai para lugar algum, e por isso é chamado Tathagata (”O assim vindo”). Não vir de lugar algum é nascer, e não partir para lugar algum é morrer  ; onde não há nascimento ou morte, aí está o dhyana-pureza   do Tathagata. Ver que todas as coisas são vazias é sentar-se (em meditação)... Fundamentalmente, não há obtenção nem realização; muito menos sentar-se em meditação!

”Hui-neng argumentou ainda: — Enquanto houver essa maneira dualista de ver as coisas, não haverá libertação. A luz   se opõe à treva; as paixões se opõem à iluminação. A menos que estes opostos   sejam iluminados por Prajna   (conhecimento transcendental), de modo que se estabeleça uma ponte sobre a diferença   entre ambos, não haverá compreensão do Mahayana. Se você permanecer numa das extremidades da ponte e não for capaz de compreender a unidade   da natureza de Buda  , não será um dos nossos. A natureza de Buda não conhece aumento nem diminuição — esteja no Buda ou no comum dos mortais. Quando está nas paixões, não está maculada; o fato de se meditar sobre ela não a torna mais pura. Ela não persiste nem é aniquilada; não chega nem parte; não está no meio nem nas extremidades; ela não morre nem nasce. Permanece a mesma todo o tempo, imutável   em todas as mudanças. Assim como nunca nasceu, nunca morrerá. Não se trata de substituir   a morte pela vida, mas de a natureza de Buda transcender nascimento e morte. O principal é não conceber as coisas em termos de bem e mal e nos restringirmos a isso; mas deixar a mente   livre como ela é em si mesma e deixá-la cumprir suas inesgotáveis funções. Esta é a maneira de entrar em harmonia   com a essência   da Mente.”

A concepção de Hui-neng sobre Dhyana, como podemos constatar agora, diferia daquela tradicionalmente sustentada pelos seguidores do Hinayana e do Mahayana. Seu Dhyana não era a arte de tranquilizar a mente para que sua essência interior, pura e imaculada, pudesse extravasar os seus invólucros. Seu Dhyana não resultava da concepção dualista da mente. A tentativa de alcançar a luz dominando as trevas é dualista e jamais conduzirá o yogue à compreensão correta da mente. Também não se sustenta a tentativa de destruir a distinção. Por isso, Hui-neng insistiu na identidade   de Dhyana e Prajna; pois, enquanto se separar Prajna de Dhyana e Dhyana de Prajna, nenhum deles será avaliado como deve. O Dhyana unilateral tenderá com certeza   ao quietismo e à morte, como provam fartamente os exemplos da história do Budismo e do Zen. Por isso, não podemos tratar o Dhyana de Hui-neng separadamente de seu Prajna.


Ver online : D. T. Suzuki