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Evdokimov Kardia

domingo 20 de março de 2022

O coração na perspectiva bíblica
São João Damasceno refere-se ao homem como microcosmo, universo resumido, por conter em si todos os planos. O ser humano sintetiza a criação gradual dos cinco dias, da qual ele é o sexto dia, o da conclusão, mas possui ainda um princípio que lhe é peculiar e o torna único: é feito à imagem de Deus, e, como tal, é microthéos. Para melhor delimitar sua interioridade, devemos introduzir o termo bíblico leb, kardia, coração.

Tal expressão não coincide, de forma alguma, com o centro emocional dos psicólogos. Os judeus pensavam com o coração, pois ele integra todas as faculdades do espírito humano; a razão e a intuição nunca são estranhas às opções e simpatias do coração. O homem é um ser visitado, a verdade habita nele, burila-o interiormente na própria fonte de seu ser. Sua relação com o conteúdo do coração, lugar da "inabitação", constitui sua consciência moral onde o Verbo fala. O homem pode tornar seu coração lento para crer (Lc 24,25), fechado, empedernido, chegando a se dividir, levado por dúvidas (cf. Tg   1,8) e até mesmo à decomposição demoníaca em legião (Mc 5,9). Uma vez extraída a raiz transcendente (segundo a bela definição de Platão, o espírito está suspenso por sua raiz ao infinito), é a loucura no sentido bíblico: o insensato diz em seu coração: Deus não existe, e então, só resta o aglomerado de "pequeninos corações", de "pequenas eternidades de gozo" (Kierkegaard  ). A este estado patológico do coração corresponde a prece: "através de teu amor, une-te, ó minha alma"; do conjunto dos estados psíquicos, a oração faz irromper a alma; neste mesmo sentido são Paulo   pede a simplicidade de coração (Cl 3,22) e o salmista: Senhor, unifica meu coração (SI 86,11).

O coração é o centro que irradia e impregna o todo do homem; ao mesmo tempo, encontra-se em sua profundeza. O "conhece-te a ti mesmo" dirige-se, antes de tudo, a esta profundeza: "entra em ti e lá encontra Deus, os anjos e o Reino", dizem os espirituais. Seu âmago é inacessível. Com efeito, tenho consciência de mim mesmo; esta consciência me pertence, mas não pode alcançar nem captar o eu6; o eu é transcendente às suas próprias manifestações. A consciência é limitada por sua estrita dimensão que jamais poderá ser transposta. Meus sentimentos, pensamentos, atos, consciência pertencem-me, são "meus" e é disto que tenho consciência, mas o eu está além do "meu". Somente a intuição mística o descobre, porque ela sai de Deus e penetra sua "imagem" no homem; o símbolo do coração o designa. Quem pode conhecer o coração?, pergunta Jeremias e ele mesmo responde: Deus sonda os corações e os rins (Jr 17,9-10). São Gregório de Nissa   com muito acerto enuncia este mistério: "Nossa natureza" espiritual "existe segundo a imagem do Criador, assemelha-se ao que está acima dela, na incognoscibilidade de si próprio manifesta o cunho do inacessível". São Pedro fala do homo corais absconditus — do homem escondido do coração; significa que é na profundeza recôndita do coração que se encontra o eu humano. Ao Deus absconditus corresponde o homo absconditus; à teologia apofática, a antropologia apofática

Lá onde está teu tesouro, aí estará também teu coração (Mt 6,21). O homem é definido pelo conteúdo de seu coração, pelo objeto de seu amor. São Serafim dá ao coração o nome de "altar de Deus", lugar de sua presença e órgão de sua receptividade. Plagiando Descartes  , o poeta Baratyncky dizia: amo ergo sum. O coração ocupa o primado hierárquico na estrutura do ser humano 10, é nele que a vida é vivida, ele possui intencionalidade original imantada, como a agulha da bússola: "é para ti que tu nos criaste, Senhor, e somente em ti nosso coração encontrará a paz" (santo Agostinho  ).