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Macho-Fêmea

domingo 20 de março de 2022

CABALA
Annick de Souzenelle  : Excertos de «Pour une mutation intérieure»

Tal uma estrela saindo da Câmara Nupcial e cantando o resplendor de sua luz antes de se reunir ao esposo no secreto de um buraco negro, assim cada coisa saindo do Nada, dizendo seu Nome e retornando ao Nada; assim o Adão, amado de Deus.

O Adão que todos nós somos, nascido de ‘Zero - Ain é criado “eikon - Imagem de Deus”, e como acabo de dizer, semeado de Deus! A imagem é dinâmica e chamada a crescer até a Semelhança (a Deificação). Para realizar esta dinâmica, Adão é além do mais “criado macho e fêmea”.

“Macho”, Zakor em hebreu, é também o verbo “mneme Theou - se lembrar”!...

“Fêmea”, Nqebah, é um “buraco” mas também o verbo “Apelo - chamar”.

É “macho” a montante da situação de exílio, o Adão que se lembra de seu polo “fêmea”, seu outro “lado” que não é um lado de onde teria sido tirado a mulher, mas o lado feminino interior a todo ser humano ainda incógnito, um “buraco” sem fundo, um abismo aberto a todos os possíveis, uma transcendência infinitamente rica de energias potenciais, que o Gênesis denomina o “incompleto” e cujo núcleo é a Imagem, Semente divina fundadora; aquela que funda a verdadeira identidade de cada um, seu Nome secreto.

Poderíamos chamar hoje em dia o polo macho, o consciente; o polo fêmea, o inconsciente.

Todo ser humano, em sua ontologia, seu estado à montante do exílio é definido pela qualidade que tem de ser consciente e capaz de mneme Theou - se lembrar do imenso potencial de energias contido na parte ainda incógnita dele, transcendente, um cosmo de uma riqueza inaudita, e do sol deste cosmo, Deus nele que “Apelo - o chama”. Poderia se dizer que este polo feminino é rico de uma espécie de poeira de estrelas ainda apagadas, mas que, ativadas, se iluminarão e se tornarão informação. Se o Homem ontológico é também definido em seu horizonte possível, o drama do “esquecimento” que será acompanhado daquele da “surdez”... donde “o absurdo”.

Todo Adão descrito como acima, em seu ser criado no sexto dia do Gênesis é, neste sexto dia, ainda inconsciente dele mesmo, confundido com seu polo fêmea, seu outro lado, aquele denominamos justamente “o inconsciente”. É na obra do sétimo dia que um processo de diferenciação se completa e que estes dois polos constitutivos de seu ser podem se casar. Uma força de amor infinito lhe é dado para isso; ela é presença do Espírito, inseparável de sua “Semente de Filho” na Imagem divina que o funda. Esta força de amor é simbolizada pela flecha de um arco tencionado para seu alvo, o coração mesmo daquele que o chama, o Esposo divino. Pois o Adão ontológico tem por vocação essencial a “mutação” em penetrando cada uma das energias potenciais de seu polo fêmea, seu inconsciente, a fim de os integrar, de construir seu polo macho, o tornando assim capaz de ir sempre mais longe nele mesmo e de transforma estas energias em informação. Compreendemo então o que para a Árvore do Conhecimento que não podemos chamar ontologicamente “do bem e do mal”, mas aquela do “completo e não-ainda-completo”. A Árvore, no casamento destes dois polos, representa a suntuosa verticalização de seu ser, crescimento interior da semente do Filho do Homem, Filho divino nele, crescimento tencionado para a “Semelhança”.

O Jardim do Éden é em nós este espaço ontológico de encontro do Homem com seu outro “lado” denominado Ishah, a Esposa; aquela que é também nomeada Adamah porque ela é mãe, matriz da qual o Adão deve nascer em terras novas, dentro dele, aquelas que são níveis de consciência mais e mais elevados.

Neste sentido cada indivíduo é chamado a esposar sua mãe interior, e isso dá uma dimensão outra à leitura do mito de Édipo  , que sem erradicar a de Freud  , concerne nossa situação de exílio.