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Coomaraswamy (PVB:15-17) – A Vida de Buda

sexta-feira 23 de setembro de 2022

    

Reduz à humildade   as ideias insensatas da tua vontade, e empenha-te em subjugar a besta   cruel. Estás preso à vontade; esforça-te em desatar   este laço que não poderia ser rompido. Tua vontade é tua Eva. [SÃO BOAVENTURA  , De Conversione]

A história da vida de Buda   é bastante conhecida, de modo que nos bastará resumi-la aqui rapidamente: os oitenta anos de sua vida abrangem a maior parte do século V a. C., mas as datas exatas de seu nascimento e sua morte são incertas. O príncipe Siddharttha, filho   único do rei Suddhodana do clã dos Sakiya, e de sua esposa   Maha Maya  , nasceu em Kapilavatthu, capital de Kosala, país que se estendia do Nepal meridional até ao Ganges. Quando falamos do rei (raja), é preciso não esquecer que a maioria dos «reinos» do vale dos Ganges nessa época eram na realidade repúblicas presididas pelos «reis» em questão; o processo seguido nos concílios de monges budistas foi análogo ao das assembleias republicanas e ao das corporações e conselhos de províncias.

Até o momento do Grande Despertar  , Siddharttha não passava ainda de um Bodhisatta, embora essa existência fosse a última de inúmeros renascimentos no curso dos quais ele amadureceu as supremas virtudes e a sagacidade   que conduzem à perfeição. Tornando-se Buda, «o Desperto» é às vezes designado pelo seu nome de família, Gotama ou Gautama, o que o distingue dos sete (ou dos vinte e quatro) Budas anteriores dos quais era mais precisamente o descendente em linha direta. Vários dos epítetos de Buda o ligam ao Sol ou ao Fogo   e subentendem sua natureza divina; ele é, por exemplo, «o olho do Mundo»; seu nome é «Verdade», e entre os sinônimos mais significativos da palavra Buda (o «Desperto») temos as expressões «o que se tornou Brahma  », «o que se tornou Dhamma  ». Diversos trechos de sua vida são a repetição direta de mitos anteriores. Por isso somos levados a perguntar-nos se a «vida» do «Vencedor da Morte», do «Mestre de sabedoria   dos deuses e dos homens», que declara ter nascido e sido educado no mundo de Brahma, e ter descido do céu para nascer das entranhas de Mara Maya, pode ser considerado como histórico, ou se não é antes mítico, onde as naturezas e os altos feitos das deidades védicas Agni   e Indra   se encontram «evhemerisadas» de modo mais ou menos natural. Não possuímos extratos contemporâneos; mas no século III a. C. certamente acreditava-se que Buda tinha vivido como homem entre os homens. É um enigma   que não podemos discutir aqui; embora o autor se incline a dar sua preferência à interpretação   mítica, falaremos de Buda como se fosse uma personagem histórica.

O príncipe Siddharttha foi educado na opulência da corte de Kapilavatthu; foi mantido na completa ignorância da velhice, da doença   e da morte às quais todos os seres deste mundo estão submetidos por natureza. Casaram-no com sua prima Yasoda, que lhe deu um único filho, Rahula. Foi pouco depois do nascimento de Rahula que os deuses acharam que chegara a hora em que Siddhartta devia «sair» e empreender a missão para a qual se preparara durante tantos nascimentos anteriores, momentaneamente esquecidos por ele. Tinha-se dado ordens: logo que ele atravessasse a cidade para se dirigir do palácio ao parque de recreio, nenhum velho, nenhum doente, nenhum cortejo fúnebre devia aparecer   nas ruas. Assim propunham os homens; mas os deuses apareceram servindo-se das formas de um doente, de um velho, de um cadáver   e de um monge  -mendicante (bhikkhu). Quando Siddharttha viu estes espetáculos, inteiramente novos para ele, e aprendeu pelo seu cocheiro   Channa, que todos os homens estão sujeitos à doença, à velhice e à morte, e que somente o religioso mendicante se eleva acima desta dor   que o sofrimento e a morte causam a todos os outros seres humanos, ficou profundamente abalado. Tentou logo procurar remédio a esta qualidade   mortal   que é inerente a todos os compostos, a tudo o que teve um começo e que deverá ter consequentemente um fim. Em outras palavras, dispôs-se a descobrir o segredo da imortalidade e dá-lo a conhecer ao mundo.

Regressando ao palácio, informou o pai de sua disposição  . Como o rei não o pudesse dissuadir, tentou reter à força seu filho e herdeiro, colocando guardas em todas as portas do palácio. Mas uma noite, após ter lançado um último olhar à sua esposa e ao seu filho, que dormiam, Siddharttha chamou seu cocheiro e, montando seu cavalo Kanthaka, aproximou-se das portas, que os deuses lhe abriram sem ruído; conseguiu fugir  . Era a «Grande Partida».


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