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Evando Nascimento (Derrrida) – o inefável

domingo 20 de março de 2022

      

O ponto dentre todos que mais interessa, como exemplo daquilo que se propõe tanto como gesto desconstrutor, quanto como equívoco de leitura a evitar — esse detalhe é o do valor   do inefável, caracterizado pela impossibilidade de nomear Deus  , que em princípio guiaria a escrita desses “teólogos   negativos”. Ainda quando a Ele se dirige, todo discurso tentando nomeá-Lo diretamente perde de imediato Sua essência, a qual consiste em ser superior à de todo ser existente. O nome de Deus é o índice mais claro de nossa distância em relação a Ele. Como diz “L’Inexprimable” (“Das Unausspreliche”, em alemão, quer dizer também “O Inefável”) do mesmo Silesius  : “Penses-tu dire le nom de Dieu dans le temps?/ On ne l’énonce pas dans une éternité” (SILESIUS, 1970, p. 89). Nada justifica o uso de palavras para aquilo que escapa ao logos humano. Deus escapa aos limites de todo saber enquanto função lógica de nossa determinação existencial, daí ser imperativo falar dEle de forma indireta, quer dizer, por vias negativas. Deus nem é, nem não é. O para-além do conhecimento humano ambicionado pela teologia negativa se orienta na direção de uma hiper-essencialidade. A verdade da teologia negativa não é a da adequação ou da semelhança   (adequado ou homoiosis), uma vez que nenhum discurso pode dar conta da hiper-essência que é Deus, diante dEle toda proposição se mostra falha e inadequada — mas é a verdade como desvelamento   final de uma presença plena, aletheia. O inefável implica uma rarefação do discurso na medida em que for se aproximando de seu suposto objeto. Ainda que [262] seja impossível determinar o ponto em que a discursividade apofática se extingue, ela se constitui na propensão para algo, um Super-Ser, em relação ao qual o nome de Deus seria totalmente insatisfatório.

“On Ne mesure pas l’essence” é mais um poema que fala sem querer falar dessa Presença Eterna, imutável   em Sua identidade   para com Seu Verbo: “Il N’y a de commencement ni de fin, / De centre ni de cercle, où que je me tourne (SILESIUS, 1970, p. 106).

Daí muitas vezes se identificar esse discurso a um ateísmo, uma vez que o nome divino é inteiramente derrisório. Nenhuma palavra pode dar conta da “própria coisa” que se busca alcançar. Esse é, pois, o detalhe que faz toda a diferença   para com a différance e a série atípica dos indecidíveis. Se um pensamento   do rastro é possível, se essa hipótese extremamente paradoxal e, por definição, indemonstrável tem alguma força — esta reside em não se tratar nem de uma presença, nem de uma ausência, mas de um terceiro gênero   (como fala Platão a respeito de khora) irredutível às oposições binárias, tanto mais que não se apresenta como uma solução dialética dos pares opositivos.


Ver online : Jacques Derrida