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Filosofia Amor

domingo 20 de março de 2022

      

Excertos comentados de "Les Notions philosophiques  ". PUF, 1990

O amor é uma alegria   acompanhada da representação de uma causa   exterior (Spinoza  , 1677, A Ética, III, def. VI). Comporta portanto uma alegria e uma espécie de sentimento   de causalidade. Por esta definição, Espinosa se opunha a Descartes   que definia o amor como o sentimento de fazer com o objeto amado   uma só totalidade da qual constitui a parte mais preciosa: "O amor é uma emoção da alma   causada pelo movimento   dos espíritos que a incita a se juntar   de vontade aos objetos que lhe apareciam ser convenientes" (Paixões da Alma, art. 79, 80). Diferentes espécies de amor são por conseguinte concebíveis.

Três reflexões ocidentais sobre o amor: o tema platônico (O Banquete   - vide Platon   - neste site), o tema salomônico (Cântico dos Cânticos  ) e o tema de Tristão (Tristão e Isolda). Neste terceiro tema sublinha-se uma afinidade   entre o amor e a morte.

O eros platônico se opõe à agape cristão: "No eros e na agape, encontramos duas realidades que nada tem em comum na origem  ; todavia, elas estão estreitamente ligadas no curso da história, tão perfeitamente entremeadas que não se pode falar de uma sem evocar a outra (Nygren, 1930-1936, Eros e Agape).

O eros nasceu da piedade   determinada pelos mistérios (mysterion  ): é ascensão   da alma (psychanodia  ) em direção   a sua pátria divina. Platão propõe assim uma filosofia que é ao mesmo tempo   uma soteriologia. "O eros é a conversão (strepho do homem   do sensível ao suprasensível. É a aspiração da alma (psyche) para o que está no alto. É uma força real   que relança a alma em direção ao mundo das Ideias   (eidos  )." O eros é um desejo que tende para as esferas superiores. Este amor, enquanto (ato) e movimento, se inscreve exclusivamente ao ativo do homem. Em nossos dias, para Max_Scheler, o amor é um movimento "intencional" à favor do qual aparece um valor   superior de um ser concreto. Não é jamais motivado pelo conhecimento de um valor que este ser teria já realizado em sua Existência - existência empírica.

A agape por contra é espontânea e "não motivada"; ela é independente do valor de seu objeto. Ela não constata valores, ela os cria. "Se existe uma comunhão entre o homem e Deus  , ela só pode ser estabelecida por um ato divino  ": a agape cria a comunhão. Deus é amor, e a agape é Deus. A passagem do eros à agape é uma "transmutação de todos os valores antigos" (Eros e Agape).

A ascensão platônica dos belos corpos às belas almas e enfim ao inteligível mesmo define o Eros como a produção — poiesis   — mesmo do Belo, do Verdadeiro em si naquilo que cria a receptividade, a sensibilidade ao Beleza - Belo em si, ao Verdadeiro (aletheia  ) em si. Não se ama o que é belo, acha-se belo o que se ama. A beleza (objeto) não é a causa mas o efeito do amor. De onde a desvalorização de todas as belezas tomadas como causas e que se tornará, ulteriormente, o combate   da alma em direção à "espiritualidade". Tema que será retomado por Espinoza com a crítica do amor como simpatia.

O eros em sua "poiética" libera espaço onde a realidade dada à receptividade e sua significação (sentido e realidade são uma mesma essência   - ousia  ) se distinguem. Um corpo recebido, aí compreendido seu próprio   corpo, é uma opacidade que só se torna corpo, um belo corpo, uma bela alma, elevando a alma a outros dados: a ideia de corpo (soma), a ideia de belo (kallos  ), a ideia de alma (psyche), ausentes da percepção mas que a ela se impõem em conferindo ao que percebido sua significação, sua realidade tinha em consideração   uma transcendência   — no sentido moderno, o amor da ciência (episteme  ), da justiça (dike  ), da arte (techne  .