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Proclo Cristianismo

domingo 20 de março de 2022

Excertos da tradução portuguesa da ECE Editora, 1984
A ESTRUTURA TEOLÓGICO-METAFÍSICA DA MÍSTICA ECKHARTIANA
(continuação)

Contudo, o pensamento de Plotino   atua poderosa ainda que invisivelmente sobre a especulação do mundo cristão por meio de seus seguidores, especialmente de Proclus   - Proclo  . Em Proclus   - Proclo   a doutrina plotiniana sofre uma profunda reestruturação, mas sem modificações essenciais: a teologia negativa   e a teoria do "centro da alma" são objeto de um novo e mais insistente exame; a doutrina das "enadas", que parece ausente no sistema de Plotino   — mas que, na realidade, está implícita nele — enfoca mais claramente a relação dialética entre o Uno e o múltiplo e cria um certo pluralismo espiritualista que encontrará a expressão moderna e mais completa em Berkeley   e em Leibniz  ; a doutrina cíclica do real através da detenção, do avanço e da volta, que encontrará entusiasta aceitação em Hegel  , é a formulação de maior exatidão metafísica e a que melhor abarca o núcleo do sistema plotiniano, destinada a reunir intimamente o que a teoria das "enadas" parecia haver separado inexoravelmente. Somente na importância reconhecida às artes mágico-teúrgicas Proclus   - Proclo   contrasta com o equilíbrio místico-racional de Plotino   e obedece às caprichosas e sentimentais exigências de sua época; mas também estas teorias deviam encontrar tácita aceitação até no mundo cristão, que da teurgia de Proclus   - Proclo   podia tirar motivos adequados para fundar uma teoria dos sacramentos.

As obras de Proclus   - Proclo  , traduzidas para o latim, divulgaram as ideias neoplatônicas no Ocidente e resgataram indiretamente do esquecimento o pensamento plotiniano. Em 1268 Guilherme de Moerbecke traduziu a Elementatio theologica e mais tarde, o De decem dubitationibus circa providentiam, o De providentia et fato et eo quod in nobis e O De malorum subsistentia, cujo texto grego se perdeu. Mas as intuições neoplatônicas podiam conservar-se no mundo escolástico e atuar em profundidade sobretudo por obra do De Causis. A pequena obra, atribuída geralmente a Aristóteles  , era na realidade uma redação livre da Elementatio theologica de Proclo   realizada por um árabe e traduzida para o latim por Geraldo de Cremona nos fins do século XII com o título de Liber de Expositione bonitatis purae. O De Causis, que foi traduzido também para o hebraico nada menos que quatro vezes, foi considerado digno de estudo e de comentário por Alberto Magno, por Tomas de Aquino   - Tomás de Aquino   e por Egídio Colonna e foi conhecido também por Dante   que o cita várias vezes no De Monarchia, no Convívio e nas Epístolas. Mas o pensamento neoplatônico, chegava ao Ocidente, por intermédio dos árabes,também em outra obra, atribuída assim mesmo, por engano, ao Estargirita: a Theologia Aristotelis. O original grego é de data e de procedência incertas; sabemos ao invés, que a versão árabe de Ibn Abdallah Naima de Emesa remonta ao ano 800 mais ou menos e que a reelaboração de Abu Joseph Jacob Ibn Isaac Alkindi pertence ao período compreendido entre 833 e 842. Segundo a opinião de Henry, a Theologia não seria mais que uma parte, talvez a primeira, dos cem livros de Escolios, isto é, dos apontamentos tomados por Amélio nas aulas de Plotino  , e neste caso nos conservaria nada menos que a tradição oral da ensinança plotiniana. Por intermédio do De Causis e da Theologia Aristotelis, o neoplatonismo inspirou as obras de Avicena  , de Algazel   e até de Averroes   e através delas penetrou no Ocidente, mas numa estranha e singular síntese com a metafísica de Aristóteles  . Mas a "contaminação" aristotélico-plotiniana devia parecer a muitos escolásticos um híbrido conúbio que era necessário desfazer para retornar às fontes do platonismo autêntico. Também a filosofia hebraica, sobretudo por obra de Avicebron   e Maimonides - Moisés ben Maimon, renovava muitos motivos neoplatônicos e preparava preciosos materiais para as grandiosas construções do Escolasticismo medieval.


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