Página inicial > Arte e Simbolismo > Símbolos Vias

Símbolos Vias

domingo 20 de março de 2022

    

Símbolos das Vias
Gregório realiza a transposição   de símbolos das três vias no Êxodo e no Cântico: "Depois de a alma   se afastou (apostesasa) de seu apego ao mal, ela desejou aproximar sua boca da fonte   de luz (te pege tou photos  ) pelo beijo místico (mystikon philematos): isto lhe concedeu sua beleza. Então, tendo percorrido (diadramousa) todo o visível   (to phainomenon  ) e tendo atravessado como a pomba, ela começou por se repousar à sombra (te skia  ) da macieira - a macieira substitui a nuvem para designar aquilo que obscurece - e agora ela está envolta pela noite divina (theias nyxtos) na qual o esposo   se aproxima, mas não aparece" (XLIV, 100 B ).

Dupla ideia da "separação  " e da "iluminação". Encontram-se expressas por termos análogos. Já encontramos apostenai e phos. Aqui se trata da separação do mal (kakos), que mostra bem a equivalência com a separação do erro  . O texto fala da "alma que lavou pela água o negrume da ignorância (tes agnoias)" (XLIV, 1001 B ). Aparece a forte   relação   com o Batismo, pelo triplo simbolismo da "fonte de luz", da "água" que lava o erro   e do "beijo místico", onde o termo mystikon pode ser traduzido por sacramental. Assim a primeira via tem por termo a restauração   da beleza, quer dizer a apatheia  .

A segunda via consiste essencialmente em uma travessia (diadramousa, diaptasa) pela qual a alma passa do mundo visível (phainomenon) ao mundo invisível  . É o caminho da corrida (eudromon, diadramousa) ou do voo (diaptasa). Há também o obscurecimento do mundo visível, relacionado à macieira (to melon), este uma figura do Verbo   (XLIV, 844 A-C ). Por último a alma é assemelhada à pomba (leveza da alma desapegada da vida sensível   pela apatheia, que nada impede a ascensão   - to takos -, mas também à graça   do Espírito   Santo) e ao cavalo (mito   de Fedro   e do coche   alado que leva a alma para a "abóbada que está acima do céu".

Expressões mistéricas para a via mística: "Que significa a iniciação   (mystagogia) da alma por esta noite? (tes nyktos)" (XLIV, 1001 C ). Domínio   da noite divina (theia nux)que equivale às trevas do Sinai. Distinção do phainetai e do paraginetai. Deus   não aparece jamais (ou phanetai), não se manifesta como coisa que a phantasia  , o entendimento, possa tomar posse (katalambanein), mas é como pessoa  , quer dizer como uma presença  . E toda via mística está aí, nesta ideia de uma noite dos sentidos e dos conceitos na qual a presença de Deus se faz mais e mais próxima (paraginetai). Estamos além do conhecimento natural (exo   ton phainomenon, ou phainetai), em uma relação de pessoa a pessoa entre alma e Deus.

Na última passagem do Comentário sobre os Cânticos, Gregório põe em relação as três vias com três disposições distintas, o temor, a esperança   e o amor; estas expostas no mesmo contexto que fala dos três livros de Salomão, e assim afirmando sua relação com as vias: "Em alguns a salvação   é operada pelo temor; em outros participam à virtude   não por amor, mas na espera por recompensas; mas aquele que se elevou à perfeição rejeita o temor, desdenha as recompensas e ama (agape  ) de todo seu coração  . Esta salvação pelo amor (di agapes - vide agape) que nos expõe o Cântico" (XLIV, 765 B ). Relação expressa entre a terceira via e o agape. Para Clemente de Alexandria   ou Origenes  , o agape entra junto com a apatheia nas virtudes (arete) da primeira via, a praktike  . Que subversão Gregório aplica no sistema de Orígenes... Para a sucessão praxis, theoria  , ele substitui um paralelismo: as três vias apresentam cada uma uma aspecto "prático" e um aspecto "contemplativo". E ainda mais, na terceira via, é o aspecto "prático", a agape, que é essencial.

O início da vida espiritual apresenta o duplo aspecto da "separação" e da "iluminação". O "despojamento das roupas de pele" figura as "opiniões erradas", e a iluminação da alma pela Sarça Ardente, quer dizer o Verbo Encarnado, nos lembra o dito anteriormente. A travessia do deserto  , sob a condução   da nuvem, nos coloca na segunda via, que objetiva desafetar a alma das coisas terrestres (os alimentos egípcios) e acostumá-la a exercer a via da fé. O termo da ascensão do Sinai, a entrada nas trevas nos leva à vida mística. As passagens de uma via a outra são pouco claras.

A entrada na via espiritual, enquanto renúncia do mal, do erro e do mundo, e iluminação pelo Verbo, tem como progresso nesta via a katharsis  , a purificação das paixões (pathos), sendo seu termo a apatheia, a paz   e a liberdade espirituais recuperadas.