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Cinco Vias

domingo 20 de março de 2022

      

Cinco   Vias
Gregório segue as vias distinguidas por Orígenes  , segundo as idades da vida espiritual, no Comentário aos Cânticos: os Provérbios a infância, o Eclesiastes a juventude   e o Cântico a maturidade. A primeira via valorizando os bens espirituais de modo a excitar o desejo, a segunda a fazer compreender a vaidade   do mundo, e "quando o coração   está purificado de todo apego ao sensível  , o Cântico introduz a alma   nos santuários divinos (mystagogei entos ton theion   adyton) onde tem lugar   a união   (anakrasis  ) da alma humana com a divindade  " (XLIV, 772A ).

Comentário sobre os Salmos   apresenta uma divisão em cinco vias, segundo a cinco partes do saltério: duas primeiras partes compreendem a apostasis   ton enantion e o desejo das coisas divinas, que são divisões da primeira via; a terceira parte é o conhecimento da natureza dos seres com alusão ao observatório, tema característico da segunda via; a quarta parte se associa também à segunda via, pelo tema da depreciação do sensível segundo a imagem da asa, figura da ascensão da alma (psychanodia  ); a quinta parte é apresentada como eukaristia, ação de graças, mas trata-se do tema da união com Deus  , característica   da terceira via. podemos assim reduzir este esquema em cinco para o anterior   em três.

Vale notar a ênfase na primeira via na manifestação dos bens divinos ao invés da purificação (katharsis  ). A primeira via é katharsis mas também photismos, iluminação; dois   aspectos do batismo que nos levam a associações entre sacramentos e graus da vida espiritual. A segunda via é a depreciação dos valores mundanos, como em Orígenes, enquanto a terceira é efetivamente cercada do vocabulário mistérico (mystagogein, adyta) e de termos referentes à união (anakrasis) e não pela theoria  .

Esta divisão é retomada na XI Homília sobre o Cântico: "A manifestação de Deus se fez a princípio em Moisés na luz (dia   photos   - vide phos); em seguida falou com ele pela Nuvem (dia nepheles); em fim, tornado perfeito, Moisés contempla Deus nas trevas   (en gnoson)" (XLIV, 1000 C). Encontram-se aqui resumidas as etapas da Vida de Moisés, que apresenta no tratado com este título.

Eis como Gregório comenta este texto: "A passagem das trevas (skotos) para a luz é a primeira separação   (anachoresis  ) das ideias falsas e erradas sobre Deus. A inteligência   (nous) mais atenta (prosekestera) das coisas ocultas, conduzindo a alma pelas coisas visíveis à realidade   invisível   é como uma nuvem (nephele) que obscurece todo o sensível e acostuma a alma à contemplação daquilo que é oculto. Em fim a alma que caminhou por estas vias em direção   às coisas do alto, tendo deixado as coisas terrestres, tanto quanto possível à natureza humana, penetra nos santuários da teognose (entos ton adyton tes theognosias), cercada de todas as partes pelas trevas (gnophos) divinas" (XLIV, 1000 C-D ). Este texto esclarece porque a vida espiritual vai da luz às trevas, sendo luz por oposição às trevas (skotos) do pecado   e do erro  . Mas esta luz nada mais é que trevas (gnophos) em comparação   com a realidade divina supraluminosa.

Para Gregório a primeira via trata de duas démarches paralelas: a perfeição que consiste na união de eusebeia  , que é a retidão da fé, e da apatheia   que é a pureza da vida (XLIV, 1041 A).

A segunda via é a subida na escala dos seres (dia phainomenon  ), que se dá pelo desengajamento do sensível e pelo acostumar-se com as realidades invisíveis. Gregório expressa isto pela metáfora do "obscurecimento". A "nuvem" (nephele) significa esta semi-obscuridade. Ela convém bem como símbolo desta via (no Dionisio Areopagita   - Pesudo Dionísio, a nephele corresponde à "teologia simbólica", quer dizer ao conhecimento de Deus, dia phainomenon: é nossa segunda via). Não esquecer que por outro lado este é o símbolo do Espírito   Santo, associando esta via não mais ao Batismo, nem a Eucaristia, como a terceira via, mas à Confirmação. Vê-se aqui o paralelismo das vias com os sacramentos essenciais, que será a estrutura   do Tratado da Vida em Jesus   de Nicolas Cabasilas, dez   séculos depois.

Encontramos por fim para a terceira via, o vocabulário mistérico que já encontramos acima (adyta), cujos caracteres são bem marcados: fora de todo mundo sensível   (exo   ton phainomenon), pois tem por objeto o invisível (to aoraton). É esta transcendência que expressa a metáfora das trevas (gnophos). A terceira via também é designada como theoria e não uma anakrasis. A primeira via é "separação do erro  "; a terceira via "contemplação do invisível".