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Novalis (P:74-76) – o mediador

domingo 4 de setembro de 2022

    

Torres Filho

74 Nada é mais indispensável para a verdadeira religiosidade que um termo médio  , que nos vincule com a divindade  . Imediatamente o ser   humano não pode em absoluto estar em relação com ela. Na escolha   desse termo médio o homem   tem de ser inteiramente livre. A mínima coerção nisto é nociva para sua religião. A escolha é característica, e consequentemente os homens cultos escolherão termos médios razoavelmente iguais, enquanto os incultos costumam ser determinados aqui pelo acaso. Como porém tão poucos homens são capazes de uma livre escolha em geral, muitos termos médios se tornarão mais universais; seja através do acaso, através de associação, ou de sua particular conveniência a isso. Desse modo nascem as religiões pátrias. Quanto mais autônomo se torna o homem, tanto mais diminui a quantidade do termo médio, a qualidade   se refina, e suas relações com ele se tornam mais múltiplas e cultas: fetiches, astros, animais  , heróis  , ídolos, deuses, um único homem-deus  . Vê-se logo quão relativas são essas escolhas e despercebidamente é-se impelido à ideia de que a essência   da religião não depende do feitio do mediador  , mas consiste exclusivamente no modo de vê-lo, nas relações com ele.

É uma idolatria no sentido mais amplo, quando eu considero de fato esse mediador como Deus mesmo. É irreligião, quando não admito nenhum mediador; e nessa medida superstição e idolatria, e descrença ou teísmo, que também se pode chamar judaísmo primitivo, são ambos irreligião. Em contrapartida, ateísmo é apenas negação de toda religião em geral e portanto não tem nada que ver com a religião. Verdadeira religião é aquela que admite aquele mediador como mediador, toma-o como que pelo órgão da divindade, por seu fenômeno sensível  . Neste aspecto os judeus   ao tempo do cativeiro babilônico conservaram uma tendência genuinamente religiosa, uma esperança   religiosa, uma crença numa religião futura, que os metamorfoseou de um modo prodigioso desde o fundamento e os conservou na mais notável constância até aos nossos tempos.

A verdadeira religião parece porém, a uma consideração   mais aproximada, mais uma vez antinomicamente dividida em panteísmo e monoteísmo  . Sirvo-me aqui de uma licença, ao não tomar panteísmo no sentido costumeiro  , mas entender sob esse nome a ideia de que tudo pode ser órgão da divindade, mediador, na medida em que o elevo a isso: assim como monoteísmo, pelo contrário, designa a crença de que somente um único tal órgão há no mundo para nós, o único adequado à ideia de um mediador, e através do qual Deus unicamente se deixa perceber, o qual portanto sou   obrigado por mim   mesmo a escolher: pois sem isso o monoteísmo não seria verdadeira religião.

Por mais incompatíveis que ambos pareçam ser, é contudo possível operar sua unificação, se se faz do mediador monoteístico o mediador do mundo intermediário   do panteísmo, e como que se centra este através dele, de modo que ambos, embora de maneira diferente, tornam necessário um o outro.

A prece  , ou o pensamento   religioso, consiste portanto em uma abstração   ou posição   triplicemente ascendente, indivisível  . Cada objeto pode ser para o religioso um templo   no sentido dos áugures. O espírito   desse templo é o onipresente Sumo Sacerdote, o mediador monoteístico, único que fica em relação imediata com a divindade. [73]

Schefer

74. Rien n’est plus indispensable à une véritable religiosité qu’un moyen terme qui nous relie à la divinité. L’homme ne peut tout simplement pas être lié directement à la divinité. Il doit être entièrement libre dans le choix du moyen terme. La moindre contrainte est ici préjudiciable à sa religion. Le choix est caractéristique et les hommes éduqués choisiront presque tous le même moyen terme, au contraire, l’homme sans éducation sera d’ordinaire déterminé par le hasard. Mais comme peu d’hommes sont en général capables d’un choix libre, plusieurs moyens termes deviendront plus universels ; que ce soit par le hasard, par une association ou par leur destinée particulière. C’est de cette manière que naissent les religions de campagne. Plus l’homme est autonome et plus la quantité de moyen terme diminue, la qualité s’affine et ses relations avec celui-ci sont davantage diversifiées et formées; fétiches, étoiles, animaux, héros, idoles, dieux, un homme dieu. On voit ici aussitôt à quel point ces choix sont relatifs et aboutissent, sans qu’on le remarque, à l’idée selon laquelle l’essence de la religion ne dépend aucunement de la nature du médiateur mais consiste bien plutôt dans notre regard sur lui, dans nos relations avec lui.

C’est un culte idolâtre, au sens large du terme, si je tiens ce médiateur pour Dieu lui-même. C’est de l’irréligion, si je n’admets aucun médiateur; à tel point que la superstition et l’idolâtrie, l’incroyance ou le théisme, que l’on peut également qualifier d’ancien judaïsme, sont tous deux de l’irréligion. Au contraire, l’athéisme n’est que la négation de toute religion en général et n’a par conséquent rien à faire avec la religion. Une vraie religion est celle qui admet ce médiateur comme tel, et le tient en quelque sorte pour l’organe de la divinité, pour sa manifestation sensible. De ce point de vue, les juifs conservaient, à l’époque de la captivité babylonienne, une tendance authentiquement religieuse, un espoir religieux, une foi en une religion future, qu’ils ont merveilleusement transformée de fond en comble, et qu’ils ont gardée avec une remarquable persévérance jusqu’à aujourd’hui.

Mais si on l’examine de plus près, la vraie religion semble à nouveau se diviser de manière antinomique en panthéisme et en monothéisme. J’use ici de licence en ne prenant pas le panthéisme en son sens habituel, mais en comprenant par là que tout organe de la divinité pourrait être un médiateur, dès lors que je l’élève à cette fonction: de même que le monothéisme désigne à l’inverse la croyance selon laquelle il n’y aurait pour nous en ce monde qu’un seul organe de ce type adapté à l’idée d’un médiateur, qui permet seul de percevoir Dieu, et qui me contraindrait à choisir par moi-même : faute de quoi le monothéisme ne serait pas une vraie religion.

Aussi inconciliables que semblent être ces deux religions, on peut toutefois les réunir, si l’on fait du médiateur monothéiste le médiateur du monde intermédiaire du panthéisme, et que l’on centre en somme celui-ci à travers celui-là, de sorte que tous deux se nécessitent l’un l’autre, quoique différemment.

La prière ou la pensée religieuse consiste par conséquent en une triple abstraction ou position croissante et indivisible. Chaque objet peut être un temple pour le religieux, au sens des Augures. L’esprit de ce temple est le prêtre supérieur omniprésent — le médiateur monothéiste — qui entretient seul une relation directe avec la divinité.


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