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Curiosidade

domingo 20 de março de 2022

    

GURDJIEFF  : RBN 1 - DESPERTAR  
Já sinto que em teu «falso» — mas de acordo contigo «real» — ser-ciente [consciousness  ], começam a estar agitadas, como «moscas cegas», todos os datum   - principais dados transmitidos a ti por hereditariedade de teu tio e mãe  , a totalidade   dos quais, sempre e em tudo, pelo menos engendra em ti o impulso — no entanto extremamente bom — de curiosidade, como no dado caso, para descobrir tão rapidamente quanto possível porque eu, quer dizer, um noviço em escrever  , cujo nome nem mesmo uma vez foi mencionado nos jornais, subitamente me tornei tão único.

Não importa! Eu pessoalmente estou muito satisfeito com o surgimento desta curiosidade embora somente em teu falso ser-ciente, como já sei de experiência que este impulso desvalioso do homem   pode algumas vezes até mesmo passar deste ser-ciente para a natureza própria de um e se tornar um impulso valioso — o impulso do busca - desejo pelo conhecimento, que, por sua vez, assiste à melhor percepção e mesmo à compreensão mais próxima da essência   de qualquer objeto no qual, como por vezes acontece, a atenção   de um homem contemporâneo pode concentração - estar concentrada, e portanto eu estou querendo mesmo, com prazer, satisfazer esta curiosidade que surgiu em ti no momento presente  .


FILOSOFIA MODERNA Martin Heidegger  : SER E TEMPOCURIOSIDADE

A constituição fundamental da visão   mostra-se numa tendência ontológica para «ver», própria da cotidianidade. Nós a designamos com o termo curiosidade. Em suas características, a curiosidade não se limita a ver, exprimindo a tendência para um tipo especial de percepção - encontro perceptivo com o mundo. Interpretaremos esse fenômeno com um propósito fundamentalmente ontologia - ontológico-existencial. Não limitaremos a sua orientação pelo conhecimento que, já cedo e na filosofia grega, foi concebido, não por acaso, segundo o «prazer de ver». O tratado que figura em primeiro lugar na coletânea dos escritos ontológicos de Aristóteles   começa com a seguinte frase: pantes anthropoi tou eidenai oregontai physei (Metafísica  , A 1, 980 a), «no ser do homem reside, de modo essencial, o acurar do ver». Assim começa uma investigação que procura descobrir a origem   da pesquisa científica acerca dos entes e de seu ser a partir deste modo de ser da Dasein   - presença. A interpretação   grega da gênese existencial da episteme   - ciência não é casual. Aquilo que se pressignou na sentença de Parmênides   — [pois o mesmo é a ser e a pensar  ] - chega, nessa interpretação, a uma compreensão temática e explícita. O ser   é tudo que se mostra numa percepção puramente intuição   - intuitiva, e somente esse tipo de ver descobre o ser. A aletheia   - verdade originária e autêntica reside na intuição - intuição pura. Desde então, essa tese tem sido o fundamento da Filosofia - filosofia ocidental. Dela a dialética de Hegel   retirou o seu moto e somente à sua base é que se tornou possível.
[...]
A curiosidade liberada, porém, ocupa-se em ver, não para compreender o que vê, ou seja, para chegar a ele num ser, mas apenas para ver. Ela busca apenas o novo a fim de, por ele renovada, correr para uma outra novidade. Esse acurar em ver não trata de apreender e nem de ser - ser e estar na verdade através do saber, mas sim das possibilidades de abandono - abandonar-se ao mundo. Por isso, a curiosidade caracteriza-se, especificamente, por uma impermanência   junto ao que está mais próximo. Por isso também não busca o ócio   de uma permanência contemplativa e sim a excitação e inquietação mediante o sempre novo e as mudanças do que vem ao encontro. Em sua impermanência, a curiosidade se ocupa da possibilidade contínua de dispersão. A curiosidade nada tem a ver com a contemplação admiradora dos entes, o thaumazein  . Ela não se empenha em se deixar levar para o que não compreende através da admiração, do espanto. Ela se ocupa em providenciar um conhecimento para simplesmente ter-se tornado consciente. Os dois   momentos constitutivos da curiosidade, a impermanência no meio - mundo circundante das ocupações e a dispersão em novas possibilidades, fundam a terceira característica essencial desse fenômeno, que chamamos de desamparo. A curiosidade está em toda parte e em parte nenhuma. Este modo de ser-no-mundo desvela um novo modo de ser da Dasein - presença cotidiana em que ela se encontra constantemente desenraizamento - desenraizada.