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Edgar Allan Poe (Marginalia) – fantasias

quarta-feira 14 de setembro de 2022

    

Oscar Mendes & Milton Amado

Um francês — talvez tenha sido Montaigne — diz: “Fala-se em pensar  , mas, quanto a mim  , nunca penso, senão quando me sento para escrever  ”. É o fato de nunca pensar, salvo quando nos sentamos para escrever, a causa   de produções tão fracas. Mas talvez haja, na observação   deste francês, alguma coisa de mais, que não se acreditaria à primeira vista. É certo que o ato apenas de redigir tende, em alto grau, a dar mais lógica   ao pensamento. Todas as vezes que estou descontente com uma concepção do meu cérebro   por motivo de sua vaguidão excessiva, recorro imediatamente à pena  , com o fim de obter, graças ao seu auxílio, a forma, a coerência e a precisão necessárias.

Quantas e quantas vezes não ouvimos a observação de que tal ou qual pensamento ultrapassa a esfera   das palavras?! Não acredito que um pensamento propriamente dito possa estar fora do alcance da linguagem. Prefiro imaginar que, onde uma dificuldade   se apresenta, há, na inteligência que a ela se aplica, uma falta de decisão   ou de método. Quanto a mim, jamais tive pensamentos que não pudessem ser expressos por palavras, e mesmo com uma nitidez superior à com que eu os havia concebido: como o observei acima, o pensamento se torna mais lógico pelo esforço exigido pela sua representação escrita. Há, todavia, uma classe de fantasias, de uma delicadeza rara, que não são pensamentos, e as quais, até aqui, achei absolutamente impossível adaptar à linguagem. Sirvo-me da palavra fantasias ao acaso, e unicamente porque necessito empregar uma palavra qualquer; mas a ideia que se liga comumente a este termo não é aplicável, nem mesmo de longe, às sombras de sombras em questão. Elas me parecem mais psíquicas que intelectuais. Não se elevam da alma   (ai! tão raramente) senão no momento de suas fases mais intensamente sossegadas, quando a saúde   corporal e moral é perfeita, e somente naqueles instantes de tempo em que os confins do mundo que desperta se fundem nos do mundo dos sonhos. Só me torno cônscio dessas “fantasias” quando me encontro à “beira” do sono e com a consciência   do meu estado  . Contentei-me em saber que esta condição só existe durante um tempo inapreciável, e, no entanto, se incorpora ela a essas “sombras de sombras”; e um pensamento absoluto exige certa duração. Essas fantasias contêm um êxtase delicioso, tão afastado dos êxtases mais deliciosos do mundo da vigília ou dos do sonho   quanto o é de seu inferno o céu das mitologias setentrionais. Considero estas visões, no momento em que se erguem, com um temor que, até certa medida, modera e tranquiliza o êxtase; considero-as assim pela convicção   em que estou (convicção que parece ser uma parte do próprio êxtase) de que este êxtase é, em si mesmo  , de uma essência   superior à natureza humana que é um relance de vista sobre o mundo externo dos espíritos; e chego a esta conclusão — se este termo pode ser de alguma maneira aplicado à intuição instantânea — de que a delícia experimentada comporta, na sua base, o absoluto   da novidade. Digo o absoluto porque nestas fantasias — permite-me que as chame agora de impressões psíquicas — não há realmente nada que se aproxime do caráter das impressões geralmente experimentadas. É como se os cinco   sentidos fossem suplantados por cinco miríades de outros sentidos, estranhos à natureza mortal  .

Ora, tenho tão inteira confiança   no poder da palavra que, por momentos, acreditei possível dar corpo, na sua própria imaterialidade, às fantasias que tentei descrever. Em experiências tendo este objetivo em vista, fui bastante longe a ponto de controlar, à primeira vista (quando a saúde do corpo e da alma é satisfatória), a existência   desta condição: quero dizer que sou   agora capaz (salvo em caso de doença) de prever   a vinda desta condição, se o desejar, no momento já descrito; desta vinda jamais podia eu antes estar certo, mesmo nas circunstâncias mais favoráveis. Em uma palavra, quero dizer que posso estar certo, quando todas as circunstâncias são favoráveis, da vinda desta condição, e sentir-me eu mesmo capaz de fazê-la nascer, ou de obrigá-la a nascer: entretanto, as circunstâncias favoráveis não deixam de ser raras — do contrário já teria eu obrigado o Céu a descer à Terra  .

Original

Some Frenchman — possibly Montaigne — says: “People talk about thinking, but for my part I never think, except when I sit down to write.” It is this never thinking, unless when we sit down to write, which is the cause of so much indifferent composition. But perhaps there is something more involved in the Frenchman’s observation than meets the eye. It is certain that the mere act of inditing, tends, in a great degree, to the logicalization of thought. Whenever, on account of its vagueness, I am dissatisfied with a conception of the brain, I resort forthwith to the pen, for the purpose of obtaining, through its aid, the necessary form, consequence and precision.

How very commonly we hear it remarked, that such and such thoughts are beyond the compass of words! I do not believe that any thought, properly so called, is out of the reach of language. I fancy, rather, that where difficulty in expression is experienced, there is, in the intellect which experiences it, a want either of deliberateness or of method. For my own part, I have never had a thought which I could not set down in words, with even more distinctness than that with which I conceived it: — as I have before observed, the thought is logicalized by the effort at (written) expression. There is, however, a class of fancies, of exquisite delicacy, which are not thoughts, and to which, as yet, I have found it absolutely impossible to adapt language. I use the word fancies at random, and merely because I must use some word; but the idea   commonly attached to the term is not even remotely applicable to the shadows of shadows in question. They seem to me rather psychal than intellectual. They arise in the soul (alas, how rarely!) only at its epochs of most intense tranquillity — when the bodily and mental health are in perfection — and at those mere points of time where the confines of the waking world blend with those of the world of dreams. I am aware of these “fancies” only when I am upon the very brink of sleep, with the consciousness that I am so. I have satisfied myself that this condition exists but for an inappreciable point of time — yet it is crowded with these “shadows of shadows;” and for absolute thought there is demanded time’s endurance. These “fancies” have in them a pleasurable ecstasy, as far beyond the most pleasurable ­of the world of wakefulness, or of dreams, as the heaven of the Northman theology is beyond its hell. I regard the visions, even as they arise, with an awe which, in some measure, moderates or tranquilizes the ecstasy — I so regard them, through a conviction (which seems a portion of the ecstasy itself) that this ecstasy, in itself, is of a character supernal to the human nature — is a glimpse of the spirit  ’s outer world; and I arrive at this conclusion — if this term is at all applicable to instantaneous intuition   by a perception that the delight experienced has, as its element, but the absoluteness of novelty. I say the absoluteness — for in these fancies — let me now term them psychal impressions — there is really nothing even approximate in character to impressions ordinarily received. It is as if the five senses were supplanted by five myriad others alien to mortality.

Now, so entire is my faith in the power of words, that, at times, I have believed it possible to embody even the evanescence of fancies such as I have attempted to describe. In experiments with this end in view, I have proceeded so far as, first, to control (when the bodily and mental health are good) the existence of the condition: — that is to say, I can now (unless when ill) be sure that the condition will supervene, if I so wish it, at the point of time already described: — of its supervention, until lately, I could never be certain, even under the most favorable circumstances. I mean to say, merely, that now I can be sure, when all circumstances are favorable, of the supervention of the condition, and feel even the capacity of inducing or compelling it: — the favorable circumstances, however, are not the less rare — else had I compelled, already, the heaven into the earth.

I have proceeded so far, secondly, as to prevent the lapse from the point of which I speak — the point of blending between wakefulness and sleep — as to prevent at will, I say, the lapse from this border-ground into the dominion of sleep. Not that I can continue the condition — not that I can render the point more than a point — but that I can startle myself from the point into wakefulness; and thus transfer the point itself into the realm of Memory; convey its impressions, or more properly their recollections, to a situation where (although still for a very brief period) I can survey them with the eye of analysis  . For these reasons — that is to ­say, because I have been enabled to accomplish thus much — I do not altogether despair of embodying in words at least enough of the fancies in question to convey, to certain classes of intellect, a shadowy conception of their character. In saying this I am not to be understood as supposing that the fancies, or psychal impressions, to which I allude, are confined to my individual self — are not, in a word, common to all mankind — for on this point it is quite impossible that I should form an opinion — but nothing can be more certain than that even a partial record of the impressions would startle the universal   intellect of mankind, by the supremeness of the novelty of the material employed, and of its consequent suggestions. In a word — should I ever write a paper on this topic, the world will be compelled to acknowledge that, at last, I have done an original thing.


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