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Dostoievski (D) – presença de harmonia eterna

segunda-feira 12 de setembro de 2022

    

— Existem segundos — apenas uns cinco   ou seis [1] simultâneos — em que você sente de chofre a presença   de uma harmonia   eterna plenamente atingida. Isso não é da terra  ; não estou dizendo que seja do céu, mas que o homem   não consegue suportá-lo em sua forma terrestre. Precisa mudar   fisicamente ou morrer  . É um sentimento   claro e indiscutível. É como se de súbito   você sentisse toda a natureza e dissesse: sim, isso é verdade! Deus  , quando estava criando o mundo, no fim de cada dia da criação dizia: “É, isso é verdade, isso é bom” [2]. Isso... isso não é enternecimento, mas algo assim... uma alegria  . Você não perdoa nada porque já não há o que perdoar. Não é que você ame — oh, a coisa está acima do amor! O mais terrível é que é extraordinariamente claro e há essa alegria. Se passar de cinco segundos a alma   não suportará e deverá desaparecer. Nesses cinco segundos eu vivo uma existência e por eles dou toda a minha vida porque vale a pena  . Para suportar dez   segundos é preciso mudar fisicamente. Acho que o homem deve deixar de procriar. Para que filhos, para que desenvolvimento se o objetivo foi alcançado? No Evangelho está escrito que na ressurreição   não haverá partos, serão como os anjos   de Deus [3]. Uma alusão. Sua mulher está dando à luz?

— Kiríllov, isso lhe acontece com frequência?

— De três em três dias, uma vez por semana [4].

— Você não tem epilepsia?

— Não.

— Então vai ter. Cuide-se, Kiríllov, ouvi dizer que é assim mesmo que a epilepsia começa. Um epiléptico me descreveu minuciosamente essa sensação que precede um ataque  , tal qual você o fez; ele também contou cinco segundos e disse que não dava mais para suportar. Lembre-se do cântaro de Maomé [5], que não conseguiu derramar-se enquanto ele percorria todo o paraíso em seu cavalo. O cântaro são esses mesmos cinco segundos; lembra demais a sua harmonia, e Maomé era epiléptico. Cuide-se, Kiríllov, é a epilepsia!

— Não vai dar tempo — riu baixinho Kiríllov.

[Excerto   de Dostoievski  , Fiodor. Os Demônios. Tr. Paulo Bezerra. Editora 34]


Ver online : Fiodor Dostoievski


[1Anna Grigórievna Dostoiévskaia observa que essa passagem em que Kiríllov narra para Chátov ataques de epilepsia reflete “as sensações experimentadas por Fiódor Mikháilovitch, narradas por ele mesmo a mim e aos nossos filhos”. (N. da E.)

[2“Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gênesis, 1, 31). (N. da E.)

[3“Porque na ressurreição nem se casam nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos do céu” (Mateus, 22, 30). (N. da E.)

[4A frase é ambígua, mas deixa subentendido que os ataques ocorrem de três em três dias ou uma vez por semana. (N. do T.)

[5Segundo a lenda muçulmana, Maomé, despertado certa vez no meio da noite pelo anjo Gabriel, que tocou com a asa um cântaro com água, viajou a Jerusalém, conversou com Deus no céu, com um anjo e com os profetas, viu o inferno em fogo, e tudo isso em tão pouco tempo que, ao voltar, conseguiu evitar que o cântaro acabasse de cair. (N. da E.)